Blecaute
Naquela noite, o blecaute desceu sobre a cidade como um véu espesso, engolindo luzes, telas e ruídos. As pessoas saíram às janelas, acenderam velas e tentaram entender o que havia acontecido. A explicação oficial veio rápido: sobrecarga na rede elétrica, falha técnica inevitável. Mas havia algo mais. No escuro, uma mulher sentou-se à mesa de sua cozinha, encarando a chama trêmula da vela. Ela percebeu que não conseguia lembrar o rosto de seu avô, morto apenas dois anos antes. Não era apenas o rosto – eram as histórias que ele contava, os cheiros de sua casa, os conselhos sussurrados em tardes preguiçosas. Tudo parecia desvanecer, como se nunca tivesse existido. Outros começaram a sentir o mesmo. Um homem esqueceu o nome do primeiro amor. Uma criança não reconheceu a melodia de ninar que a mãe cantava todas as noites. Memórias, grandes e pequenas, evaporavam junto com a eletricidade. O blecaute não extinguiu apenas as lâmpadas; ele apagou pedaços de quem as pessoas eram. Alguém su...