Altruísmo
Há algo inquietante na gênese da beleza.
Não nasce apenas do gesto deliberado,
mas do acidente luminoso que escapa ao controle
e se deposita no mundo como uma revelação involuntária.
O criador, por mais consciente que seja,
não domina os movimentos secretos da forma.
Ele apenas abre uma passagem,
e por ela algo maior escorre —
uma imagem que não pediu permissão para existir,
mas insiste em ser.
Toda beleza é, em alguma medida, uma fuga.
Um desvio do grotesco, um refúgio contra a erosão do espírito.
Mas é também uma fronteira perigosa:
pode seduzir como um abismo decorado,
pode ferir com a suavidade de um véu.
Ainda assim, a beleza permanece inocente.
Não porque seja pura,
mas porque não sabe mentir.
Ela simplesmente aparece,
como um lampejo que atravessa a sombra
e nos faz lembrar que, mesmo entre ruínas,
há sempre algo tentando florescer.
Texto inspirado no livro espelho

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