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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Blecaute

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  Naquela noite, o blecaute desceu sobre a cidade como um véu espesso, engolindo luzes, telas e ruídos. As pessoas saíram às janelas, acenderam velas e tentaram entender o que havia acontecido. A explicação oficial veio rápido: sobrecarga na rede elétrica, falha técnica inevitável. Mas havia algo mais. No escuro, uma mulher sentou-se à mesa de sua cozinha, encarando a chama trêmula da vela. Ela percebeu que não conseguia lembrar o rosto de seu avô, morto apenas dois anos antes. Não era apenas o rosto – eram as histórias que ele contava, os cheiros de sua casa, os conselhos sussurrados em tardes preguiçosas. Tudo parecia desvanecer, como se nunca tivesse existido. Outros começaram a sentir o mesmo. Um homem esqueceu o nome do primeiro amor. Uma criança não reconheceu a melodia de ninar que a mãe cantava todas as noites. Memórias, grandes e pequenas, evaporavam junto com a eletricidade. O blecaute não extinguiu apenas as lâmpadas; ele apagou pedaços de quem as pessoas eram. Alguém su...

A história treme

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“Agora, a terra range, e a história começa a tremer.” Ninguém acreditou quando as primeiras vibrações subiram pelas solas dos pés — um aviso tímido, quase um suspiro enterrado sob séculos de silêncio. Mas então as estátuas começaram a virar o rosto, como se despertassem de um sono milenar, e os pássaros, aqueles que ainda restavam, ficaram imóveis no ar, sustentados apenas pelo medo. No horizonte, uma fissura abriu-se como uma pálpebra prestes a revelar o indizível. Da fenda não saiu fogo nem fumaça, mas um brilho antigo, pesado, que parecia reconhecer cada ser humano pelo nome. E nesse instante, todos souberam: não era o fim do mundo que chegava, mas o fim de tudo o que o mundo fingiu ser. A verdade avançava — lenta, inevitável — enquanto a terra rangia sob o peso de uma história que finalmente acordava para julgar seus autores.

Perseverante

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O ano era 57 a.C., e a noite em Jeonju se desdobrava como um tecido de sombras e prata, entrelaçado pela lua que repousava, silenciosa, sobre os telhados curvos do palácio Hwaryeon. Um jovem escriba caminhava sozinho pelo pátio interno, repetindo em voz baixa um verso que nunca conseguia concluir. Tinha falhado tantas vezes que já não contava mais os erros — apenas os passos. Cada pedra sob seus pés parecia perguntar se ele desistiria ali. Ele não respondeu. Continuou. Quando a alvorada veio, tímida e quase imperceptível, não trouxe glória nem aplausos. Trouxe apenas uma linha escrita sem tremor. Uma única linha. Mas era verdadeira. E o escriba compreendeu, enfim, que perseverar não era vencer a noite, mas caminhar com ela até que, cansada, fosse embora sozinha.

Poderes Famintos

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  No mundo cinza — esse campo de batalha onde até o eco havia perdido a voz —, as Cores não lutavam por beleza, mas por sobrevivência.  Cada tom era um poder faminto: o Vermelho devorava pulsos, o Azul engolia silêncios, o Amarelo roía esperanças. Não queriam pintar o mundo; queriam comê-lo.  E o Cinza, velho e vasto, assistia como um deus cansado: sabia que, quando a última Cor se saciasse, não restaria tela — apenas fome sem nome sobre ruínas transparentes. 

Labirinto

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 Fui engolido pelo labirinto verde como quem entra em si mesmo pela porta errada. Cada folha murmurava o meu nome em uma língua que eu não lembrava ter aprendido. O chão respirava sob meus pés, e percebi, tarde demais, que não caminhava: era sonhado. Ali, onde a luz se perde em musgos antigos, compreendi que a floresta não me cercava — ela me continha. E, dentro de seu infinito silencioso, descobri a mais cruel das dádivas: não sou pequeno diante do mundo — sou dispensável. A grandeza da mata não estava em crescer… mas em continuar quando eu deixasse de existir.