Blecaute

 


Naquela noite, o blecaute desceu sobre a cidade como um véu espesso, engolindo luzes, telas e ruídos. As pessoas saíram às janelas, acenderam velas e tentaram entender o que havia acontecido. A explicação oficial veio rápido: sobrecarga na rede elétrica, falha técnica inevitável. Mas havia algo mais.

No escuro, uma mulher sentou-se à mesa de sua cozinha, encarando a chama trêmula da vela. Ela percebeu que não conseguia lembrar o rosto de seu avô, morto apenas dois anos antes. Não era apenas o rosto – eram as histórias que ele contava, os cheiros de sua casa, os conselhos sussurrados em tardes preguiçosas. Tudo parecia desvanecer, como se nunca tivesse existido.

Outros começaram a sentir o mesmo. Um homem esqueceu o nome do primeiro amor. Uma criança não reconheceu a melodia de ninar que a mãe cantava todas as noites. Memórias, grandes e pequenas, evaporavam junto com a eletricidade. O blecaute não extinguiu apenas as lâmpadas; ele apagou pedaços de quem as pessoas eram.

Alguém sugeriu que talvez fosse o contrário: não era o blecaute que causava o esquecimento, mas o esquecimento que provocava o blecaute. Cada vida negligenciada, cada história não contada, cada momento ignorado alimentava essa escuridão coletiva. A cidade, cega de tanto gravar vídeos e acumular likes, finalmente sucumbira à sobrecarga de sua própria memória artificial.

No terceiro dia sem luz, alguns começaram a contar histórias. Sentados em círculos iluminados por velas, compartilharam fragmentos do que ainda restava: amores antigos, risadas perdidas, promessas feitas sob o céu estrelado. Aos poucos, as luzes retornaram – não todas, mas o suficiente para lembrar que a verdadeira energia sempre esteve nas conexões humanas, não nos fios.


Quando a eletricidade voltou completamente, semanas depois, muitos optaram por manter suas casas às escuras por mais algumas horas todas as noites. Tinham aprendido que o brilho das lembranças, por mais frágil que fosse, era o único capaz de afastar a escuridão real.

Comentários