Os Dez Segundos e o Silêncio
Era agosto, e o calor do interior parecia um bicho vivo respirando por entre as frestas da casa. O ar parado trazia o cheiro doce da goiabeira do quintal misturado ao de gordura morna que subia da frigideira. Ela cortava tomates e cebolas sobre a tábua riscada, com a faca boa que ganhara de presente — presente de um Natal em que ainda acreditava que o amor se podia embrulhar em papel colorido.
Vestia a velha calça de algodão, frouxa, e a camiseta desbotada do tempo de colégio dos filhos. O cabelo, preso num coque rápido. Era o seu uniforme. Uma forma discreta de não incomodar o mundo. Com ele, sentia-se a salvo da obrigação de ser bonita, desejável, qualquer coisa além de suficiente.
Lá fora, o rádio do vizinho tocava uma moda sertaneja arrastada, e o cachorro do outro lado da rua latia como se o tempo nunca passasse.
Ele entrou pela porta dos fundos com o prato de carne assada, o rosto iluminado por uma luz amarela que o fazia parecer estrangeiro. Disse algo banal — talvez sobre o fogo, talvez sobre o gás que estava acabando. Mas ela não ouviu as palavras. O instinto, esse bicho que vive atrás das costelas, já sussurrava o que vinha.
Ela se aproximou. Tocou o braço dele. Foi um toque breve, de quem ainda tenta o impossível: retomar um idioma esquecido. Abraçou-o.
Dez segundos. Foi o que durou o gesto.
Ele permaneceu imóvel, como quem é surpreendido por um estranho. O corpo dele não respondeu — nem recuou, nem acolheu. Apenas ficou. E nesse ficar, ela compreendeu tudo o que as palavras jamais diriam.
Afastou-se. Olhou para as cebolas que começavam a dourar além do ponto. O cheiro azedo da queima subiu, e ela desligou o fogo devagar, como se aquele simples gesto pudesse interromper o destino.
Não houve briga, nem lágrimas. Apenas o ruído da faca contra a pia, o som das facas secando no pano de prato. Ele foi para o quarto, ligou a televisão. Ela continuou parada, com as mãos úmidas, olhando o quintal pela janela. O sol se escondia atrás dos fios de luz e dos galhos da mangueira, e as cigarras começavam sua ladainha noturna — esse barulho que parece preencher o silêncio de quem não tem mais o que dizer.
Naquela noite, ele dormiu virado para a parede, o corpo em posição de fuga. Ela ficou imóvel, sentindo o peso invisível de um tempo que terminava sem estardalhaço.
De manhã, a mesa estava posta: café, pão, manteiga. Um bilhete no guardanapo — “Volto mais tarde.”
Ela leu como quem lê um epitáfio.
Depois, lavou a louça, pendurou o pano, abriu as janelas. O dia entrou, quente, indiferente.
E ela, de frente para o espelho do banheiro, viu-se pela primeira vez sem o disfarce de quem ainda esperava ser vista.
Não foi o casamento que acabou — foi a esperança.
Dez segundos bastaram para a eternidade dizer: “agora é tarde.”

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