Nem Sonhos Temos
Como cemitério de arquivos esquecidos.
Há lugares dentro da mente onde o tempo não passa, apenas se acumula — como poeira sobre livros nunca mais abertos. Lá repousam os arquivos que não tiveram coragem de morrer. Fragmentos de dias, rostos, vozes e intenções interrompidas que jazem sem sepultura, porque ninguém mais se lembra de esquecê-los. São restos de pensamento, como ossos que o vento empilhou na praia de uma consciência cansada.
Quando me aproximo deles, há um silêncio semelhante ao das casas abandonadas. Sinto o ar pesado, feito de tudo o que já foi pensado e depois deixado à deriva. Nenhuma janela se abre. E, ainda assim, ouço os ecos — os murmúrios do que poderíamos ter sido, das conversas que não aconteceram, das cartas que não se escreveram porque, no instante do gesto, o corpo se desviou.
Penso em como as pessoas vivem entre arquivos. Pastas e pastas de si mesmas, fechadas com senhas que já esqueceram. Vão acumulando vidas dentro de outras vidas, e o que chamam de "memória" talvez seja apenas um cemitério organizado, um inventário de fantasmas.
Virginia Woolf teria caminhado por esses corredores internos com uma lanterna na mão, ouvindo o som úmido das paredes, perguntando — como sempre — onde termina o eu e começa o rumor da casa. Ela talvez dissesse que cada lembrança é uma maré que volta, e que as mulheres, sobretudo, carregam o peso dos arquivos que lhes foram negados: as palavras nunca ditas, os nomes nunca assinados, os pensamentos interrompidos no meio de uma frase.
Mas há um outro tom, mais ácido, que me atravessa — algo como o eco de *Nem Sonhos Temos*. Essa constatação árida de que, entre o pó e o arquivo, já não existe o impulso de desejar. O sonho virou documento: protocolo, registro, ficha. Tudo o que era movimento transformou-se em dado. Já não sonhamos — arquivamos. E, nesse gesto, o mundo perde o seu sopro.
Há um cansaço profundo em abrir esses arquivos. É como se cada lembrança pedisse para morrer, mas a mente — teimosa, arquivista — insistisse em conservar o cadáver. Somos curadores de um museu sem visitantes. De tempos em tempos, revisamos o acervo do inútil, buscando alguma peça viva, alguma faísca que justifique o trabalho de existir.
Mas o que resta, afinal? Talvez o próprio ato de lembrar seja um modo de manter o impossível em respiração lenta. Talvez cada esquecimento adiado seja a última forma de fé — a crença de que algo, lá no fundo do cemitério de arquivos esquecidos, ainda pulsa.
E, se escutarmos com atenção, entre o som dos arquivos que se fecham, há um sussurro quase imperceptível:
"Eu ainda estou aqui".

Comentários
Postar um comentário