O Monumento Invisível
Seu corpo, ainda ereto aos setenta e quatro anos, parecia um monumento à ordem que ele tanto prezava. Não era orgulho — era disciplina convertida em ossos, silêncios e pequenas renúncias diárias.
Diziam que ele caminhava como quem atravessa um templo que ninguém mais enxerga, cuidando para não profanar a geometria das próprias escolhas. Cada gesto seu parecia medir o mundo, como se o equilíbrio dependesse de um alinhamento secreto entre a coluna e o tempo.
Certa manhã, ao ajustar a lapela do casaco, percebeu uma leve oscilação na mão. Sorriu: até os monumentos tremem quando o vento da vida insiste em lembrá-los de que são feitos de carne.
E, pela primeira vez, sentiu que talvez a verdadeira ordem não estivesse na rigidez, mas na coragem de aceitar que tudo o que permanece, permanece apesar de si.

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