Amar ao próximo como a si mesmo
A frase me atravessava mais como abalo sísmico do que como mandamento. Não soava como gesto de delicadeza, mas como um presságio de fratura — a suspeita de que, ao tocar o outro, tocamos inevitavelmente as nossas próprias ruínas.
Há quem a leia como promessa de harmonia; eu a leio como o espelho que não escolhemos encarar. Porque amar o próximo implica admitir que aquilo que oferecemos ao mundo é, antes, o que sustentamos — ou suportamos — dentro de nós. E talvez seja essa a verdadeira violência do preceito: revelar que o amor que negamos aos outros é o mesmo que nunca aprendemos a conceder a nós mesmos.
No fundo, o sismo não vem da frase, mas do que ela nos pede: que nos aproximemos do abismo interno com a mesma seriedade com que desejamos salvar o mundo. Que cada gesto de cuidado seja também uma escavação. Que cada proximidade carregue o risco de expor fissuras antigas.
Amar ao próximo como a si mesmo não é um chamado ao altruísmo.
É um aviso.
E, às vezes, avisos vêm no timbre das catástrofes.

Comentários
Postar um comentário