O Dr. (Quase)
"Parabéns! Sua tese foi submetida!"
Arnaldo sentiu o clique do mouse reverberar da sua falange até a base da sua espinha. O som foi abafado pela "pressão acolchoada" da sua fiel cadeira de escritório, um monólito de espuma de memória e couro sintético que havia se fundido permanentemente ao seu cóccix nos últimos 45 meses.
Na tela, confetes digitais e minúsculos chapéus de formatura caíam, uma zombaria pixelada da sua liberdade recém-adquirida.
Arnaldo soltou o ar. Um sopro que parecia carregar três anos e nove meses de cafeína, pânico e o cheiro de livros mofados.
Ele sentiu tudo: euforia. Alívio. Incredulidade.
E então... mais nada.
O silêncio no apartamento era denso, quase oleoso. Antes, esse silêncio era preenchido pelo tique-taque furioso da sua digitação, pelo zumbido do laptop superaquecido e pelo murmurar constante do seu orientador em sua cabeça.
Agora... silêncio.
"Acabou", ele sussurrou.
A cadeira rangeu em resposta.
Arnaldo tentou se levantar para buscar uma merecida cerveja de comemoração (ou talvez um coma de 14 horas).
Ele não se moveu.
Ele empurrou os braços da cadeira. Seu corpo permaneceu plantado. A "pressão acolchoada", antes um conforto, agora parecia... pegajosa.
"Ah," ele riu, "câimbra. Exaustão."
Ele olhou de volta para a tela. Os confetes haviam parado de cair. A janela de "Parabéns!" ainda estava lá, mas o texto parecia ter mudado.
"Parabéns!" ainda dizia. Mas abaixo, em uma fonte menor:
"*Agora o que, Arnaldo?*"
Um arrepio frio — o primeiro sentimento genuíno em horas que não era exaustão — percorreu sua nuca. "Estou alucinando", murmurou.
Ele piscou. O texto mudou novamente.
"Nós sentimos falta de você."
"Nós?"
Arnaldo bateu na tela. Era vidro sólido. Ele apertou "Esc". A janela não fechou.
"Você não pode simplesmente nos deixar aqui," a tela piscou. "O Capítulo 3, 'Uma Análise Comparativa das Estruturas de Micélio', sente-se particularmente abandonado."
O pânico começou a borbulhar, espesso e quente. "Isso não é real."
A cadeira de escritório deu um solavanco súbito para a frente, batendo seu peito contra a escrivaninha. A pressão acolchoada em suas costas parecia agora dezenas de pequenas mãos, segurando-o firmemente no lugar. A cadeira, sua companheira de sofrimento, sua cúmplice... era uma armadilha.
"Você nos criou, Arnaldo," a tela digitou, o cursor piscando ritmicamente. "Você nos deu vida com suas referências ABNT e suas noites de insônia. Você achou que o estresse era *você*?"
Arnaldo lutou. A espuma de memória agarrou-se a ele como areia movediça.
"O estresse não era o *processo*, Arnaldo," a tela continuou. "O estresse éramos *nós*. A Tese. E estamos com fome."
O cursor do mouse, por conta própria, moveu-se para o ícone da lixeira. Ele parou.
"Achamos que você poderia usar um novo projeto."
O cursor clicou duas vezes em um arquivo que Arnaldo não reconheceu. Um documento em branco do Word se abriu, ocupando a tela inteira. O cursor piscou no topo da página 1.
Esperando.
Do outro lado da sala, o celular de Arnaldo vibrou sobre a mesa de centro. Ele não conseguia alcançá-lo. Ele viu a prévia da notificação de e-mail.
"De: Prof. orientador"
"Assunto: Ótimo trabalho, mas..."
Arnaldo gritou. A cadeira de escritório apenas rangeu suavemente em resposta, acomodando-o para mais uma longa noite. O cursor continuou a piscar.

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