O Homem de cueca na carroceria


Era madrugada e o ar tinha aquele gosto de ferro e silêncio que só existe quando o mundo parece ter esquecido de respirar.

Ele estava de cueca, na carroceria de um caminhão velho, desses que parecem carregar mais fantasmas que carga. Não sabia como chegara ali — talvez sonhando, talvez fugindo —, mas o motor roncava como se tivesse vontade própria, e a estrada de terra se estendia em direção a um nada que pulsava no horizonte.


O vento cortava o corpo, e cada rajada parecia perguntar:

“Por que você está aqui?”

Ele não tinha resposta.

Talvez fosse amor, talvez culpa, talvez o cansaço de quem tenta amar sem conseguir permanecer inteiro.


O absurdo daquela cena — um homem sem rumo, sem roupa, sem rumo e sem sono — era de uma lucidez insuportável. Porque não havia ninguém rindo, ninguém filmando, ninguém para dar contexto. Apenas ele, o vento e o som dos grilos.

E, de repente, ele compreendeu o que Rollo May teria dito: que o amor não é um refúgio, é uma tensão. Só que agora, a tensão era o frio, a solidão, o medo do próximo buraco na estrada.


Ele pressentiu que aquilo não ia dar bom.

Não apenas porque caminhões não deveriam dirigir sozinhos, mas porque tudo naquela noite parecia uma metáfora que estava prestes a se materializar.

A lua o observava como um terapeuta silencioso. O caminhão seguia, ora gemendo, ora tossindo engrenagens. E ele, encolhido no metal gelado, começou a rir.

Um riso seco, trincado, de quem entendeu que a vida é, afinal, uma sequência de situações absurdas em que nos flagramos nus — literal ou metaforicamente — tentando justificar por que escolhemos amar quem amamos.


Talvez aquele caminhão fosse o amor.

Velho, barulhento, cheio de ferrugem e mistério, levando-o por estradas que ele não escolhera.

E ele, meio tonto, meio lúcido, sabia: amar é isso. É estar de cueca na carroceria, sentindo o frio das decisões e o calor das lembranças, sabendo que, a qualquer curva, tudo pode desabar.


Quando o motor finalmente morreu, o silêncio foi tão profundo que parecia um veredicto.

O homem desceu, descalço, olhou para a estrada e murmurou algo como uma prece ou um xingamento — ninguém saberia dizer.

Depois seguiu andando, como quem sai de um sonho que não ousará contar a ninguém.


Porque, no fundo, amar alguém é sempre acordar de cueca no meio da madrugada, com a sensação de que isso não vai dar bom — e, ainda assim, continuar caminhando.


Comentários