A Revelação do Mundo pelo Corpo-Próprio

Ensaio sobre a Gênese da Realidade

O problema da Realidade, para o pensamento que se pretende genuinamente contemporâneo, não reside mais na demonstração de uma substância exterior e transcendente que se imporia a um sujeito puro. Essa antiga fábula, herança de um dualismo ingênuo, deve ser desmantelada. A Realidade não é um espetáculo estático, um “em-si” acabado, que aguarda passivamente o olhar de um “para-si” desencarnado. Se assim fosse, como poderíamos nós, seres "situados", seres de carne e respiração, ter acesso a esse absoluto mudo?


Não, a Realidade não é revelada como um mapa preexistente que simplesmente desdobramos; ela é, em sua essência, a correlação incessante entre o meu ser e o mundo. A revelação é a própria eclosão dessa relação.


Onde, então, se opera essa eclosão? Na Carne. Não na carne biológica, objeto das ciências naturais, mas no "corps propre" (corpo-próprio), esse feixe de intenções, essa potência de ação e de percepção que sou eu mesmo, aqui e agora, em face do mundo.


O corpo não é um objeto entre outros. Ele é a nossa condição de acesso ao sentido. É a chave que lança o Ser no mundo e o mundo no Ser.


Como a Realidade se revela? Ela se revela na medida em que o meu corpo-próprio, com sua rede de órgãos e hábitos, sabe o mundo antes mesmo de o "conhecer".


- A mão que tateia a aspereza da madeira,

- O pé que mede a firmeza do solo,

- O olho que organiza o caos das cores em uma paisagem coerente...


Tudo isso não são atos de um Espírito que comanda um instrumento, mas sim a própria Realidade se modulando através de um Ser que é, ele mesmo, mundo. A Realidade nos é revelada porque já somos dela.


Se a Realidade é a minha relação encarnada com o Ser, ela é, por natureza, perspectiva. Eu não apreendo o Ser total, a "totalidade", mas o Ser-para-mim, em seu "horizonte" sempre aberto.


O ato de ver uma mesa, por exemplo: só a vejo de um lado. O lado oculto, o avesso da tábua, é imanente à minha percepção como uma promessa – a promessa de que, com um deslocamento do meu corpo, o oculto se tornará visível. A Realidade é, portanto, esse jogo de presença e de ausência implicada.


Essa natureza perspectiva introduz a Ambiguidade. Não há transparência total, não há Verdade que se imponha de forma unívoca, como um teorema. A Realidade é uma paisagem de sentidos que se superpõem e se conflitam. A própria liberdade do Ser Humano reside nessa ambiguidade: no intervalo entre o que me é dado a ver e a maneira como eu, ser livre, assumo e projeto esse dado.


O que chamo de "Realidade" é o Sedimento de todas as nossas escolhas e de todos os nossos encontros com a opacidade do mundo.


A Realidade, enfim, é menos um "fato" do que um Sentido. E esse Sentido está sempre em Gênese, nunca totalmente "feito".


Nossa revelação mais profunda não ocorre quando alcançamos uma fórmula definitiva sobre o mundo, mas sim nos momentos em que o mundo irrompe, quebra a rotina dos nossos hábitos e nos força a uma nova compreensão. No espanto, na angústia diante da contingência do Ser, a Realidade se apresenta em sua crueza:


- O súbito desmoronamento de uma certeza;

- O silêncio eloquente de uma perda;

- A urgência inegável de uma ação.


Nesses instantes, o véu do familiar se rasga, e a Realidade nos é revelada como uma tensão – a tensão incessante entre a minha liberdade de ser e a inércia do Ser.


A Realidade, portanto, não é um refúgio para onde fugir da incerteza, mas sim o campo de batalha onde o Sentido, a cada dia, é teimosamente "conquistado" pelo nosso ser-no-mundo, esse corpo sempre em movimento, sempre à beira do próximo encontro, da próxima e inevitável revelação.


A Realidade é o que resta quando se aceita que nada, jamais, será plenamente resolvido. É o eterno "começo".

Comentários