Sobre Abandono e Presença


  

Há um certo momento em que percebemos que o abandono não é algo que nos acontece, mas algo a que consentimos. É um ato passivo, quase imperceptível, uma série de pequenas capitulações. Ignoramos os caminhos que se abrem, convencidos de que não nos dizem respeito, até que, um dia, já não há caminho algum—apenas a estrada larga e vazia que nos leva, sem resistência, para lugar nenhum.  


Nunca me pareceu acidental que as pessoas mais perdidas sejam também as mais convencidas de sua própria irrelevância. Elas falam do mundo como algo que acontece alhures, como um espetáculo ao qual não foram convidadas. Movem-se através dos dias com uma espécie de resignação técnica, cumprindo horários, assinando papéis, repetindo gestos que já não significam nada. E assim, passo a passo, entregam-se ao próprio desaparecimento.  


A resistência—a verdadeira resistência—começa quando decidimos que somos, de fato, parte do mundo. Não espectadores, mas presenças ativas. Há uma força peculiar em quem se recusa a ser transparente, em quem insiste em ocupar espaço, em deixar marcas. Não se trata de arrogância, mas de uma recusa básica: a de tornar-se fantasma antes da hora.  


É possível, claro, viver sem isso. Muitos o fazem. Mas há um preço, e ele se paga em pequenas moedas: um vago sentimento de deslocamento, a sensação de que a vida acontece sempre em outro lugar, a certeza gradual de que nada do que fazemos importa.  


O equilíbrio—se é que existe tal coisa—não vem de fora. Não é um presente do universo, nem uma concessão dos deuses. É algo que se constrói, dia após dia, através de gestos deliberados: uma escolha, uma recusa, uma insistência em dizer aqui estou.  


E talvez seja só isso: estar aqui, de verdade, e não em outro lugar.

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