O Papa é (muito) Pop?
Hayflick entra no Bar...
Quando o Santo Padre espirra, o mundo para.
Ambulâncias em êxtase, manchetes em negrito, orações globais em tempo real. Enquanto isso, Dona Maria, lá na periferia, tosse a plenos pulmões e o SUS lhe oferece... paciência. Eis a tragicomédia da compaixão seletiva! Mas, calma, que a biologia, essa piadista cósmica, nos lembra que o Papa, afinal, é feito do mesmo barro que Dona Maria. Um barro programado para se autodestruir, cortesia do implacável limite de Hayflick.
Leonard Hayflick, o cientista com nome de personagem de Woody Allen, descobriu que nossas células têm um prazo de validade. Dividem-se, dividem-se, dividem-se... e bum! Chega. Entram em senescência, um eufemismo elegante para "estão velhas e cansadas". E esse "bum!" é o prelúdio da valsa macabra da morte. Nivelando no caixão, no fim das contas.
Na sarjeta da teologia, agarramos Gênesis 3. Adão come a maçã (que, convenhamos, devia estar azeda) e, ploft, perdemos a imortalidade. Viramos pó. Uma punição divina? Talvez. Mas, pensando bem, talvez seja também um lembrete divino com glitter: "Ei, humanos! A vida é curta, aproveitem! E parem de brigar por migalhas."
"Tu és pó e ao pó retornarás" (Gn 3:19). Uma frase digna de camiseta existencialista. Mas, e se a mortalidade não for um castigo, mas uma chance? Uma oportunidade de refletir sobre a futilidade do Botox e a importância de ligar para a avó? A consciência da finitude nos empurra para o abismo da espiritualidade, em busca de um sentido que o limite de Hayflick jamais poderá explicar.
Afinal, o que nos difere do Papa acamado e de Dona Maria na fila do SUS? Aparências! O Papa tem cardápio detox e cobertura da CNN. Dona Maria tem calos e um rosário. Mas, no fundo, ambos estão dançando no ritmo implacável do limite celular.
A tradição cristã berra: "Cuidem dos doentes! Dos pobres! Dos marginalizados!". Jesus, o maior "inimigo público" do establishment da época, passava a mão na cabeça dos leprosos e expulsava os vendilhões do templo (e, provavelmente, daria um sermão nos planos de saúde hoje em dia). "Estava enfermo, e me visitastes" (Mt 25:36). Um lembrete incômodo para quem gasta mais com perfume importado do que com doações.
A doença e a morte são os grandes equalizadores. Mas a desigualdade no tratamento é um soco no estômago da fé. Que o limite de Hayflick nos lembre da nossa fragilidade compartilhada. E que, ao invés de idolatrar Papas e ignorar Donas Marias, possamos construir um mundo onde a compaixão não seja seletiva, mas sim, a regra.
Amém (e salve Hayflick!).
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