O Despertar do Eu na Neve
No silêncio da noite, quando a lua paira sobre os telhados de Kyoto como um véu prateado, o *eu* adormece. Não é um sono pesado, mas leve, flutuante, como as pétalas de cerejeira que dançam no vento antes de tocar o rio. Nesse estado, uma vontade antiga murmura, flertando com os sonhos—sonhos que são mais reais do que o dia, mais verdadeiros do que os nomes que o mundo grita.
O "outro", porém, não dorme. Ele é a voz que decide, a mão que aponta, o dedo que escreve nos jornais quem será amado e quem será esquecido. O "outro" escolhe os prazeres, elege os rostos que brilharão sob os holofotes, os nomes que ecoarão nas ruas. E o "eu"? Ah, o "eu" é como uma folha de outubro, seca e levada pelo vento — uma notícia já lida - já dobrada, já abandonada no canto da mesa.
Mas há um segredo.
Quando a neve cai sobre o jardim do templo, cobrindo cada pedra, cada musgo, cada pegada do dia anterior, tudo renasce. E o "eu" é assim: uma paisagem infinita que se refaz a cada instante. Nenhum "outro" pode apagá-lo, porque ele é a neve que nunca termina de cair, o rio que nunca cessa de fluir. O mundo pode nomear seus ídolos, pode erguer e derrubar estátuas, mas o "eu" permanece — silencioso, imenso, intocado.
Às vezes, no crepúsculo, quando os últimos raios de sol beijam os tatames, o "eu" desperta. E, por um momento, ele sabe: a única celebridade, o único candidato, o único nome que importa está ali, dentro dele — como um crisântemo branco que desabrocha na escuridão.
E então, a neve volta a cair.

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