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Artigo: Visão de um escritor da cultura, do social e da política - Musica 

A Alma Sitiada 

Música Eletrônica e a Busca por Autenticidade em um Mundo Fabricado

 


No abismo entre o som fabricado e a carne vibrante da experiência, reside a canção. "Breathe)", eles a chamam, uma extensão, uma protelação do instante sonoro, como se pudessem aprisionar o ar, a própria essência fugidia da vida, em batidas repetitivas e sintetizadas. DVBBS e a espectral Jesse Jo Stark urdem essa tapeçaria sonora, um retorno, dizem eles, a um passado de ondas sísmicas, a "Tsunami", um nome que evoca tanto destruição quanto poder bruto. Mas o que se busca reviver senão a ilusão de controle sobre o incontrolável?

A alma, advertem as vozes ancestrais que ainda ecoam em nossos crânios ocos, não deve ser estilhaçada pelo choque com o mundo material, essa avalanche de fatos e ideologias arremessadas contra nós como pedras afiadas. A ciência, o racionalismo, o materialismo – a trindade imposta que nos força a engolir sua visão de mundo, a internalizá-la até que se torne a própria arquitetura de nossas prisões interiores. Eles nos oferecem mapas frios e desolados, desprovidos do calor da intuição, do tremor da dúvida, da beleza selvagem do desconhecido.

"Tech-house", rotulam essa manifestação sonora, um termo que já carrega em si a frieza da máquina, a domesticação do ritmo primordial. Uma extensão, sim, mas de quê? Da nossa crescente incapacidade de suportar o silêncio, o vazio que nos confronta com a nossa própria mortalidade? Uma tentativa desesperada de preencher o hiato entre o que sentimos e o que nos dizem que devemos sentir?

A voz de Jesse Jo Stark, espectral, paira sobre a batida insistente. Uma presença fantasmagórica em meio à pulsação eletrônica. Será um lamento pela autenticidade perdida, um eco distante da carne e do osso em um mundo de circuitos e algoritmos? Ou é apenas mais um ornamento, uma figura estilizada a adornar a máquina sonora, distraindo-nos da sua natureza intrinsecamente artificial?

O "extended mix", a promessa de mais tempo imersos nessa paisagem sonora fabricada. Mais tempo para nos convencermos de que essa pulsação repetitiva é vida, de que essa ressonância artificial é o batimento do nosso próprio coração. Mas a alma anseia por outra frequência, por um deslocamento de perspectiva que nos liberte dessa interiorização forçada do mundo. Precisamos desaprender a ver através das lentes frias da razão pura e redescobrir a linguagem esquecida da intuição, a sabedoria silenciosa do corpo, a verdade visceral da experiência não mediada.

Em São Mateus, sob o sol de abril de 2025, enquanto o tempo continua sua marcha inexorável, essa música, como tantas outras, ecoa. Um lembrete constante da nossa luta para manter a alma intacta em face de um mundo que busca incessantemente moldá-la à sua imagem e semelhança. A questão permanece: conseguiremos nos deslocar a tempo, antes que a interiorização se torne uma prisão sem grades, antes que a melodia fabricada silencie para sempre a canção selvagem que pulsa dentro de nós? 

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