Navios em Chama
A ciência, este imenso navio solitário, avança com uma determinação quase cega, suas velas infladas pelo vento da razão, seus porões abarrotados de tolos mortos – os fantasmas de hipóteses descartadas, os esqueletos de verdades que um dia pareceram inabaláveis. Há algo de assombroso em sua travessia, algo que nos faz parar e contemplar, não com reverência, mas com um misto de fascínio e desconforto. Ela fixa túmulos transparentes em sepulturas que cegam o infinito, como se cada descoberta, cada fórmula, cada lei desvendada fosse uma lápide erguida sobre o mistério que veio antes. E nós, passageiros relutantes, seguimos a bordo, hipnotizados pelo brilho frio de suas luzes, enquanto o horizonte se dissolve em uma névoa que não sabemos nomear.
Elizabeth Kolbert, em suas crônicas sobre o colapso da natureza e a arrogância humana, poderia nos lembrar que a ciência, por mais majestosa que seja, carrega em seu bojo uma contradição inescapável. Ela despreza o subjetivo, esse emaranhado confuso de sentimentos, intuições e sonhos que nos torna humanos. Desatrela-o do mundo real com a precisão de um cirurgião, cortando os fios que ligam o coração à mente, o eu ao cosmos. E, no entanto, é exatamente a esse subjetivo que ela recorre, em segredo, para provar o melhor de suas vitórias. O que é a gravidade senão uma história que contamos a nós mesmos sobre a queda? O que é a evolução senão um espelho onde buscamos nosso próprio reflexo, distorcido pelo tempo?
São cães invisíveis latindo no subsolo, esses ecos do que a ciência não pode tocar. Eles rosnam nas sombras das equações, nas lacunas entre os dados, nos silêncios que nenhuma teoria preenche. A ciência nos leva à cegueira, não por maldade, mas por sua própria natureza – uma lanterna que ilumina o caminho à frente enquanto obscurece as margens. E assim navegamos, em um navio em chamas, suas chamas feitas não de fogo, mas de uma luz tão intensa que queima os olhos. Cada avanço é uma conquista; cada conquista, uma perda. O infinito, que outrora nos abraçava, agora nos encara de longe, um estranho que não reconhecemos mais.
Kolbert talvez nos convidasse a descer do convés por um momento, a ouvir o crepitar das chamas e o latido distante dos cães. Não para abandonar o navio – ele já é nossa casa, nosso destino – mas para lembrar que o subjetivo, esse rejeitado, ainda respira em nós. A ciência pode nos guiar, mas é a poesia do desconhecido que nos mantém vivos. E enquanto o navio segue, cortando as águas escuras, resta-nos perguntar: para onde, afinal, estamos indo? E o que deixaremos queimar em nosso rastro?
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