O Silêncio de DEUS
O Silêncio de Deus
"por ediiCamara"
Há sempre um momento em que se percebe que a fé não é uma questão de luz, mas de sombra. A irmandade, dizem-nos, é o veículo mais puro da vontade do Pai, uma corrente clara em meio ao ruído do mundo. Mas eu me pergunto: o que significa agir "de forma clara" em um tempo em que a visão do coração falha? E mais: quem, exatamente, ainda escuta o "sangue-que-fala"?
O texto sugere que a irmandade é uma contraofensiva. Contra o quê? Contra o "sopro-de-hades", uma expressão que evoca não a morte em si, mas o vento que a antecede, aquele que seca as palavras antes que sejam pronunciadas. É um sopro que não aniquila, apenas silencia. E diante do silêncio, o que resta é a linguagem do sangue—como no Êxodo, onde Deus se comunica através de marcas nas portas, de um sinal que não é discurso, mas presença.
Aqui, como em tantas outras narrativas sagradas, a comunicação divina não se dá por palavras, mas por atos. O sangue fala. A irmandade, então, não é uma abstração, mas um pacto visível, um rastro no umbral. É o que resta quando a revelação direta se ausenta.
Mas eu já vi irmandades falharem. Já vi homens e mulheres que se chamavam de irmãos virarem as costas ao primeiro sinal de crise, quando o sopro se tornou vendaval. Se a irmandade é a resposta, por que tantas vezes ela mesma é corroída pelo mesmo ar que deveria resistir? Talvez porque o sangue, mesmo quando fala, nem sempre é ouvido. Ou talvez porque, em algum ponto, passamos a confundir a irmandade com a mera proximidade, e não com o pacto que exige tudo.
Há uma solidão inerente ao crer. Mesmo na irmandade, há um abismo entre o que se diz e o que se vive. O texto original fala de uma "comunicação quando da falha da visão do coração"—ou seja, quando já não enxergamos, quando já não sentimos. É nesse deserto que a irmandade deveria ecoar. Mas e quando o eco some?
O que me intriga não é a promessa, mas a falha. Não a clareza, mas o momento em que ela se dissipa. Porque Deus, no Êxodo, marcou as casas e poupou os seus—mas depois veio o deserto, e ali, no silêncio entre os milagres, o povo duvidou. A irmandade, então, não é um escudo contra a dúvida, mas o que resta quando ela chega.
E eu me pergunto se, no fim, é disso que se trata: não de vencer o sopro-de-hades, mas de aprender a respirar dentro dele.
Inspiração: livro "O Perdão Negro" - clippings.me/ediicamara
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