Debaixo da Asa

  


Por onde se perdeu o futebol?


Talvez a pergunta mais ingênua seja também a mais urgente. À primeira vista, os estádios vibram, as camisas se multiplicam pelas ruas, os nomes de ídolos surgem com a frequência de trovões tropicais. Mas há algo podre no coração do templo. E não é recente. É um exílio silencioso, cuidadosamente maquiado com promessas de modernização e contratos milionários.


No interior das salas refrigeradas da CBF – a Confederação Brasileira de Futebol – não se ouvem mais os gritos da arquibancada. Ali, ecoam outras vozes: as de ministros em telefonemas velados, empresários em reuniões a portas trancadas, e políticos que, há muito, aprenderam que o futebol pode render mais votos do que ideias.


Como Jon Krakauer nos ensina em suas narrativas de desastres e dilemas humanos, o colapso não ocorre de repente. Ele é construído aos poucos. Em silêncio. A queda começa quando se acredita que as normas deixaram de valer — ou que foram feitas apenas para serem dribladas.


A história do futebol brasileiro, nesse sentido, é a história de um país que caiu do céu e, no impacto, esqueceu de onde veio. Um país que viu Pelé, Garrincha e Sócrates, e hoje assiste, impotente, a sucessivas denúncias de corrupção envolvendo dirigentes e figuras políticas de alto escalão. As investigações se acumulam: superfaturamento de contratos de transmissão, conluios entre clubes e bancadas políticas, repasses obscuros de dinheiro público disfarçados de “incentivos ao esporte”.


Sob a asa esquerda do Arcanjo Gabriel — metáfora para a sombra, para o desvio — a criatura já não reconhece o Criador. O futebol que era povo, suor e barro se tornou um produto de luxo, enclausurado em arenas corporativas, vendido em pacotes de pay-per-view. E quem dirige esse espetáculo são homens que nunca calçaram chuteiras, mas aprenderam rápido a jogar o jogo do poder.


Ricardo Teixeira foi apenas o início. Seu nome, gravado nos arquivos da FIFA como um dos grandes operadores de esquemas ilícitos, abriu caminho para uma linhagem de cartolas que aprenderam a manter o verniz limpo enquanto mergulham na lama. Hoje, sua sombra paira sobre a confederação como uma cicatriz que se recusa a fechar.


Como escreveu Krakauer sobre os alpinistas que escalam o Everest apenas por vaidade e patrocínio, "a linha entre coragem e imprudência é muitas vezes visível apenas no retrovisor da tragédia." Assim também é com os gestores do futebol. Eles escalam, acumulam, negociam, e só depois, muito depois — quando o estádio está vazio, o ídolo se cala e a torcida desiste — é que se percebe o abismo.


Mas há um caminho de volta. Ainda que estreito, ainda que árduo. E esse retorno exige romper com o exílio — um exílio construído não com fronteiras físicas, mas com contratos, silêncios e cumplicidades.


Para reencontrar o caminho, será preciso, como diz o texto norteador, “ir de encontro às normas daqueles que sucumbiram”. Será preciso denunciar, reformar, reimaginar. Será preciso lembrar que o futebol é mais que uma moeda de troca, mais que um trampolim político. É identidade, é alma. E ela, hoje, está em cativeiro. 

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