Esqueci o que É
O Que Escolhemos Quando Esquecemos de Viver?
O homem moderno encontra-se encerrado em si-e-isolado-de-si-mesmo; bem como distante do que está ao-seu-lado e no-seu-mundo: como uma afável planície imersa em solidão, inundada de memórias imobilizadas pelo medo.
É assim que vivemos, engolidos por nossos próprios abismos, incapazes de tocar o que está à nossa frente, mesmo quando está tão próximo que seu cheiro nos invade, seu gosto nos escorre pelos dedos. Vivemos como se fôssemos eternos e, ao mesmo tempo, como se já tivéssemos morrido. Escolhemos a pedra sem perceber.
E então há a banana.
Sim, a banana — essa fruta tão comum, tão banal em sua curvatura amarela, em sua doçura fácil, em sua presença silenciosa nas cozinhas do mundo. Mas ela carrega dentro de si histórias que nos lembram que a vida não é apenas o que se esvai entre nossos dedos, mas também o que se multiplica, o que se renova, o que se oferece sem pedir licença.
Há uma lenda, contada em algumas partes da Ásia e da África, que fala de uma escolha primordial: a banana ou a pedra. Quem escolhe a banana vive pouco, mas se reproduz, se expande, deixa rastros. Quem escolhe a pedra vive para sempre, mas sem descendência, sem continuidade, sem futuro. É uma metáfora violenta e bela sobre o que significa estar vivo. Nós, humanos modernos, talvez tenhamos escolhido a pedra sem nem mesmo nos darmos conta. Congelamo-nos em nossos medos, em nossas certezas, em nossa incapacidade de olhar para além de nossas próprias sombras.
Mas a banana insiste. Ela nos lembra que somos feitos de coisas que apodrecem, sim, mas também de coisas que germinam. A bananeira não é uma árvore — é uma herbácea gigante, uma mentira verde que se impõe no horizonte. O fruto que dela colhemos não é tecnicamente um fruto, mas uma baga. Até nisso há contradição, há surpresa. E há radiação, porque até o que nos alimenta carrega dentro de si um eco do que nos destrói. Potássio-40, uma assinatura invisível do caos que nos compõe.
Em algumas culturas, nada da bananeira é desperdiçado. Flores viram sopa, o pseudocaule vira refogado, as folhas viram embalagem, aroma, memória. A casca, que para nós é apenas lixo, para outros é ingrediente. Tudo se transforma. Tudo serve.
Nós, porém, nos trancamos em nossos mundos estreitos, incapazes de ver o que está ao nosso lado. Esquecemos que a vida é feita de escolhas — entre a pedra e a banana, entre a eternidade vazia e a fragilidade frutífera. Esquecemos que somos, também, feitos de partes que poderiam ser úteis, se ao menos déssemos a elas um uso.
Esqueci o que é estar vivo. Mas a banana, essa fruta humilde, essa baga paradoxal, essa mentira verde, me lembra: estar vivo é apodrecer e germinar ao mesmo tempo. É escolher a brevidade e, ainda assim, deixar sementes.
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