Calar a Fala

  



Ao escrever, estamos a falar da mente. Esta, como num turbilhão, arrasta-nos para correntes inseparáveis do nosso estado íntimo, onde, se tivermos sorte, vislumbramos amor e alegria em breves momentos de paz—como um náufrago que, entre duas ondas, consegue sugar um gole de ar antes de ser novamente engolido pelo mar.  


A escrita, essa atividade tão solene quanto ridícula, promove esses raros e acidentais “calar a fala” da mente. É como se, de repente, a voz interior—aquela que não para de comentar, julgar e a nos lembrar de que esquecemos de comprar papel higiénico—decidisse fazer uma pausa para tomar chá. E, nesse silêncio, surge algo que quase se parece com clareza.  


Como isto acontece? Bem, há três cenários possíveis:  


1. Grande esforço intelectual – Você está a tentar escrever um ensaio sobre Kierkegaard ou a declaração de impostos, e o seu cérebro, depois de tanto se forçar, simplesmente desiste. É como um músculo que, exausto, cede. E então, no vácuo da fadiga mental, você experimenta uma espécie de paz. Não a paz dos iluminados, mas a paz de quem já não tem energia para se preocupar.  


2. A beleza do que está a escrever – Às vezes, sem querer, você produz uma frase tão boa que fica em estado de choque. “Isto saiu de mim?” Você relê, maravilhado, como se tivesse acidentalmente assinado o nome perfeito num cheque. Por um instante, a mente se cala, porque até ela reconhece que, desta vez, você acertou.  


3. O apagão de ideias – Você está ali, sentado, a olhar para o ecrã ou para a folha em branco, e percebe que não há nada. Nada. Nenhum pensamento digno de ser registado. E, num ato de desespero, a mente entrega os pontos. É como quando uma criança que não para de fazer perguntas finalmente adormece. O silêncio é abençoado, ainda que breve.  


Claro, esses momentos são fugazes. A mente é como um cachorro hiperativo—só para quando está exausto ou distraído com um pedaço de queijo. Mas, por alguns segundos, você experimenta o que os místicos chamam de “silêncio interior” e o resto de nós chama de “alívio temporário”.  


No fim, escrever é isso: uma tentativa desesperada de calar a fala incessante dentro de nós, ainda que só para ouvir, por um instante, o som do nada. E, quando isso acontece, é tão surpreendente que quase vale a pena todo o sofrimento que antecede.  


Quase. 

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