O Sacrifício da Névoa

  


O Sacrifício da Névoa .. 

A neblina da existência pairou sobre a mente de Zé, obscurecendo a linha tênue entre o real e o irreal. Do lado de fora da sua janela, a Névoa Cinzenta lambia as bordas da aldeia, uma mortalha perpétua que, segundo os Anciãos, consumiria tudo se não fosse pelo Vidente.

O Vidente, um homem chamado Caelus, vivia no topo da Torre de Cristal, a única estrutura que perfurava a névoa e tocava o céu claro. Ele era a âncora da comunidade, a sua única esperança. Caelus afirmava que a névoa era uma entidade faminta, um deus antigo e esquecido que exigia um tributo. E o tributo era a memória.

Uma vez por ciclo, um aldeão era escolhido para o "Sacrifício da Clareza". Subiam à torre e, através de um ritual solene, ofereciam as suas memórias mais preciosas a Caelus, que as canalizava para um grande Farol. O Farol, pulsando com uma luz esmeralda, empurrava a Névoa Cinzenta para trás, garantindo mais um ciclo de sobrevivência para os que ficavam. Os sacrificados regressavam como "Vazios", corpos dóceis com olhares vagos, cuidados pela comunidade como heróis silenciosos.

A esposa de Zé, Lira, fora uma das escolhidas. Ele lembrava-se do seu sorriso trêmulo, da sua mão a apertar a dele. "É pela aldeia, Zé. É para que o nosso filho possa ver o sol." Mas o filho deles nunca chegou a nascer, levado por uma febre semanas antes. A memória que Lira levou para o sacrifício foi a de uma vida que nunca existiu.

Zé aceitou a sua perda com a mesma resignação entorpecida de todos os outros. Mas a névoa na sua mente era diferente da que estava lá fora. Era feita de fragmentos, de dúvidas. Por que é que os Vazios por vezes choravam em silêncio durante o sono? Por que é que Caelus nunca descia da sua torre?

A fissura na sua realidade abriu-se numa tarde, enquanto limpava os pertences de Lira. Encontrou um pequeno diário que ela escondera. Nas últimas páginas, a caligrafia outrora firme estava trêmula, quase ilegível. A última entrada dizia: "A luz não afasta a névoa. A luz cria a névoa. Ele mente. O Farol... ele alimenta-se de nós. A névoa é o seu escape, a sua sobra."

A neblina na mente de Zé adensou-se, mas agora tinha um foco. A farsa. A frase ecoou na sua cabeça: o sacrifício de muitos para salvar a farsa de um.

Movido por uma fúria fria que não sentia há anos, Zé esperou pela noite. Contornou os guardas e começou a escalada traiçoeira da Torre de Cristal. O ar tornava-se mais rarefeito e carregado de uma energia estranha, um cheiro a ozono e a dor contida.

No topo, não encontrou um santuário divino, mas sim um laboratório grotesco. Caelus não estava a rezar perante um farol. Estava de costas, a ajustar mostradores e alavancas numa máquina colossal que zumbia no centro da sala. O "Farol" era, na verdade, o núcleo de um motor arcano, e ligados a ele por tubos etéreos estavam os "Vazios" mais recentes, incluindo uma mulher que fora levada na semana anterior. As suas essências, as suas memórias, não estavam a ser transformadas em luz protetora, mas sim a serem drenadas, consumidas como combustível bruto.

E a Névoa Cinzenta lá fora? Não era um deus antigo. Era o exaustor daquela máquina horrível. O subproduto tóxico da aniquilação de almas.

Caelus virou-se, sem surpresa no olhar, apenas um cansaço arrogante. "Chegaste mais longe do que a maioria," disse ele, a sua voz desprovida da santidade que usava nos seus pronunciamentos.

"Tu criaste esta prisão," sussurrou Zé, o horror a solidificar-se em certeza.

"Eu ofereci um propósito!" retorquiu Caelus. "Um inimigo comum. Um sacrifício nobre. Sem a névoa, seríamos apenas um povo esquecido a morrer de tédio e desespero. Eu dei-lhes um deus para temer e um salvador para amar. Eu dei-lhes sentido!" Ele gesticulou para a vista da aldeia, aninhada sob o seu veneno manufaturado. "A verdade é feia e sem sentido. A minha farsa é bela e mantém todos vivos."

Zé olhou para a mulher ligada à máquina, o seu rosto uma máscara de agonia silenciosa. Viu Lira. Viu centenas de outros. As suas vidas, as suas alegrias, os seus amores, queimados para alimentar a ilusão de um homem que se coroara deus.

"A tua farsa não os mantém vivos," disse Zé, a sua voz a ganhar força. "Ela esvazia-os."

Sem hesitar, Zé pegou numa pesada ferramenta de metal que estava no chão e correu, não em direção a Caelus, mas em direção ao coração pulsante da máquina. Caelus gritou, um som desprovido de qualquer divindade, um som de puro pânico.

Zé golpeou o cristal central. Uma vez. Duas. Na terceira, o cristal estilhaçou-se numa explosão de luz esmeralda e escuridão. Os tubos etéreos murcharam. Os corpos dos Vazios caíram no chão, finalmente em paz. A máquina soltou um gemido metálico e silenciou.

Da janela da torre, Zé observou o impossível. A Névoa Cinzenta, privada da sua fonte, começou a dissipar-se. Lentamente, como um sonho a desvanecer-se ao amanhecer, a mortalha recuou, revelando um mundo que ninguém via há gerações: montanhas distantes, um céu salpicado de estrelas e uma lua pálida e bela.

A farsa de Caelus estava desfeita. Mas lá em baixo, a aldeia acordaria para uma verdade devastadora: os seus heróis não eram heróis, o seu deus era uma mentira e os seus sacrifícios não tinham salvado nada. Tinham apenas alimentado a vaidade de um único homem.

A neblina exterior tinha desaparecido, mas Zé sabia que uma nova névoa, mais densa e fria, estava prestes a instalar-se nos corações de todos. A névoa da verdade. E ele, o destruidor da mentira, estaria no seu epicentro. 


"A mais perigosa das névoas é a mentira aceita como verdade,

pois exige o sacrifício de muitos pela vaidade de uma só vontade.

Enfrentar a dura clareza da realidade pode ser devastador,

mas é sempre mais digno do que viver cego por um falso salvador." 


por edii Camara

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