O Guardião do Caos
Era conhecido apenas como "O Guardião". Ninguém sabia seu nome verdadeiro, nem de onde vinha, mas todos temiam seu julgamento. Diziam que ele lia as memórias como quem decifra um mapa antigo, seguindo os rastros de dor até a fonte do veneno.
O Conselho das Sombras o chamou quando o caos começou a se espalhar pela cidade. Pessoas que outrora eram pacíficas agora se voltavam umas contra as outras, enlouquecidas por um ódio sem explicação. Ruas que antes fervilhavam de comércio agora ardiam em chamas. Alguém estava semeando o caos, e o Guardião era o único que poderia encontrar o culpado.
Ele caminhou entre os escombros, tocando os rostos dos aflitos, mergulhando em suas lembranças. Cada memória era um fio desfiado, um traço de uma doença invisível. Até que, em uma criança de olhos vazios, ele encontrou o rastro.
A memória dela estava contaminada. Alguém havia plantado nela—e em muitos outros—um desejo cego de destruição. Não era magia, nem veneno comum. Era "puro poder", torcido e derramado como um óleo negro na mente dos fracos.
O Guardião seguiu o fio até sua origem: "Darius Valtair", um homem que outrora fora um nobre, agora reduzido a um espectro de ambição. Ele não queria governar—queria ver o mundo arder. Usava seu poder não para conquistar, mas para apodrecer a sanidade alheia, transformando a cidade em um espelho de sua própria ruína.
Quando o Guardião o confrontou, Darius riu.
— "Você não pode curar o que já está morto," — disse, os dedos manchados de trevas. — "O caos é a única verdade."
O Guardião não respondeu. Em vez disso, colocou a mão sobre o peito de Darius e mergulhou em suas memórias. Lá, encontrou a doença em sua forma mais pura: o medo. Medo de ser esquecido, medo da insignificância. Darius não espalhava o caos por poder—mas porque, no fundo, acreditava que era tudo o que lhe restava.
— "A memória é o mapa da doença," — sussurrou o Guardião. — "E eu vejo a tua."
Com um gesto, ele não matou Darius. Em vez disso, "devolveu" a ele cada instante de dor que havia causado. Fez com que sentisse o caos que semeou, multiplicado em sua própria mente.
Darius caiu de joelhos, gritando. A cidade ainda estava em ruínas, mas o veneno havia sido extraído.
O Guardião partiu então, levando consigo o mapa daquela doença. Porque enquanto houvesse homens dispostos a criar caos, haveria necessidade de um Guardião.
E ele sempre encontraria a fonte.
por edii Camara

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