O Retrato que Não Aceita Olhos
O ateliê de Elias Verner era um lugar silencioso, onde a luz do entardecer se infiltrava entre cortinas pesadas, iluminando telas inacabadas e pincéis secos. Ele era conhecido na cidade por sua habilidade em capturar não apenas rostos, mas almas—especialmente nos retratos funerários, últimos testemunhos dos que haviam partido.
Foi em uma tarde úmida que o estrangeiro apareceu. Vestido de preto, seu rosto era tão pálido que quase se confundia com a neblina que adentrava a porta.
— "Preciso que pinte minha filha" — disse, a voz rouca como o arrastar de folhas secas. — "Ela partiu há dois dias. Mas seu rosto... não se deixa fixar."
Intrigado, Elias aceitou a encomenda. Seguiu o homem até uma casa antiga nos arredores da cidade, onde o corpo da jovem repousava em um caixão aberto.
Ela era bela, de traços delicados, mas havia algo de errado. Cada vez que Elias tentava esboçar seus olhos, a imagem parecia desfazer-se no papel, como se a própria tinta se recusasse a mantê-los. A boca, serena num instante, no seguinte parecia torcer-se em um sorriso inquietante.
— "Ela não quer ser lembrada assim" — murmurou o estrangeiro, observando da sombra.
Elias, obstinado, insistiu. Pintou e repintou, mas a cada pincelada, sentia um frio crescente, como se mãos invisíveis tentassem arrancar o pincel de seus dedos. Na terceira noite, exausto, ele finalmente olhou para o retrato concluído e gelou.
Os olhos da jovem na tela estavam abertos. E não eram os dela.
Eram olhos escuros, antigos, que o fitavam com uma familiaridade aterradora. A boca da pintura moveu-se, sussurrando palavras que ele não podia ouvir, mas que ecoavam em sua mente como um chamado.
Na manhã seguinte, encontraram o ateliê vazio. A tela estava intacta, exceto pelos olhos—rasgados, como se alguém tivesse tentado arrancá-los às pressas. Do retratista, nunca mais se soube.
Dizem que, às vezes, em noites de vento, vê-se uma figura espectral percorrendo as ruas da cidade, carregando consigo um pincel e uma tela em branco—eternamente condenado a tentar capturar um rosto que jamais se deixará pintar.
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