O Número que Não Podia Ser Escrito


Havia um homem numa sala sem janelas. Poderia ser no deserto de Gobi, poderia ser no centro de Brasília, poderia ser em qualquer lugar onde o ar já não serve para respirar, apenas para manter a aparência de vida.

Diante dele, uma folha em branco.

Ele escreveu o número “1”.

E parou.

Não por dúvida.

Mas porque compreendeu — com aquela lucidez que só chega quando já é tarde — que todo número seguinte é uma acusação.

O problema nunca foi escrever o "1". O problema sempre foi o “2" .

O dois já é comparação.

O três já é sequência.

O quatro já é história.

E a história, quando começa a se organizar, cria uma coisa insuportável para qualquer sistema que prefira o nevoeiro: ela cria sentido.

Durante algum tempo, acreditamos que os números voltariam a existir. Chamamos isso de investigação. Chamamos isso de processo. Chamamos isso de justiça. Era um tempo em que se supunha — ingenuamente — que a realidade ainda podia ser ordenada sem pedir licença.

Mas o sistema aprendeu.

Aprendeu que não é preciso apagar os números. Basta embaralhar a ordem.

Não é preciso negar os fatos. Basta administrar o tempo.

Não é preciso proibir a verdade. Basta cercá-la de procedimentos.

Houve um primeiro grande experimento. Chamaram-no de purificação. Outros de excesso. Outros de delírio moral. No fundo, foi apenas a primeira vez que o sistema percebeu que podia matar uma pergunta sem tocar no corpo da resposta.

Enterraram aquela investigação não com pás, mas com carimbos.

Não com tiros, mas com recursos.

Não com censura, mas com filigranas.

E então o mundo seguiu. Como sempre segue. Como se segue depois de qualquer funeral que ninguém admite que foi um assassinato.

Agora há outro número tentando nascer.

Outro um.

Outra folha.

Outro silêncio.

Dizem que é apenas um caso bancário. Dizem que é apenas uma disputa técnica. Dizem que é apenas o jogo normal das instituições. Sempre dizem que é apenas.

Mas há uma diferença — e as diferenças são onde a metafísica começa a sangrar:

Agora, os guardiões do lápis também aparecem nas margens da conta.

Já não se trata apenas de proteger o método.

Trata-se de proteger a própria posição no mundo onde os métodos decidem quem existe.

O juiz, essa figura que só pode existir enquanto metáfora de distância, aproxima-se demais do fogo. E quando isso acontece, o que queima não é só a toga — é a ideia de forma.

O sistema, como todo organismo antigo, desenvolveu uma inteligência imunológica. Ele não combate a doença. Ele redefine o que passa a ser chamado de saúde.

Investigar demais vira abuso.

Ver demais vira excesso.

Perguntar demais vira ameaça.

E assim, pouco a pouco, a justiça deixa de ser uma linguagem de descoberta e passa a ser uma gramática de contenção.

Não se pergunta mais: “O que aconteceu?”

Pergunta-se: “Quanto disso pode aparecer?”

Não se pergunta mais: “Quem fez?”

Pergunta-se: “Em que instância isso deve morrer?”

O homem na sala sem janelas olha para o número 1.

Ele sabe que se escrever o 2, alguém dirá que o formato está errado.

Se escrever o 3, alguém dirá que o papel é impróprio.

Se escrever o 4, alguém dirá que a caneta não é competente para decidir.

Então ele para.

Não porque não haja números.

Mas porque o mundo em que ele está já não é um mundo que permite sequências.

E talvez seja isso que define uma época:

Não quando não há mais verdades.

Mas quando já não é mais permitido contar até elas.



por @ediicamara

Artigo inspirado no post da CNN Brasil do programa WW




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