O ar tinha mudado antes que alguém percebesse
Não foi um estrondo, nem uma explosão. Foi um deslocamento quase imperceptível — como quando o jardim ainda é o mesmo, mas o cheiro das folhas já não corresponde à memória que tínhamos delas. Algo na textura do mundo começou a ranger sem ruído. O rio, que sempre correra com a indiferença das coisas antigas, agora parecia murmurar uma pressa que não era sua.
Há sempre um momento assim antes das grandes ficções políticas: o instante em que o ambiente muda antes que a linguagem consiga nomear a mudança.
Chamam isso de monstro.
Mas nenhum monstro nasce. Todo monstro é cultivado.
Ele cresce nos intervalos da vigilância, nos corredores onde a responsabilidade se dissolve, nas zonas de conforto onde a culpa aprende a falar em voz passiva. Ninguém diz “eu fiz”. Diz-se apenas: “aconteceu”.
O mais curioso nos monstros não é sua violência, mas sua vocação retrospectiva. Eles sempre aparecem depois, apontando para trás, reorganizando o passado como se tudo tivesse sido uma preparação secreta para sua chegada. O monstro é um grande editor da memória: corta, simplifica, costura, e no fim nos entrega uma narrativa onde a complexidade foi substituída por um único culpado.
No começo, ele ainda se parece com uma explicação. Depois, vira uma atmosfera.
As sombras se alongam sob as árvores não porque o sol se moveu, mas porque aprendemos a vê-las como ameaça. O mundo continua ali, mas agora tudo parece conspirar.
O que era conflito vira perseguição.
O que era processo vira complô.
O que era erro vira intenção.
E, sobretudo, o que era política vira teologia.
Todo regime de exceção começa quando alguém descobre que a realidade é insuportavelmente ambígua e decide substituí-la por um drama moral mais simples. Nesse drama, há sempre um inocente absoluto — cansado, ferido, cercado — e há sempre uma máquina invisível, total, onipresente, que deseja não apenas vencê-lo, mas vê-lo definhar.
A máquina não governa. Ela devora.
Mas a verdadeira metamorfose não acontece nas instituições. Acontece na linguagem.
Quando as palavras deixam de descrever e passam a acusar o próprio tempo. Quando o presente vira prova, o passado vira tribunal e o futuro vira sentença. Quando cada fato já nasce com uma intenção embutida.
O jardim ainda está lá. Mas agora ele é lido como cenário de emboscada.
E então surge o apelo mais antigo de todos: não o apelo à razão, mas o apelo à sobrevivência. Não o convite a pensar, mas o pedido para resistir. Não a política, mas a oração.
Porque quando o mundo vira um processo, só resta pedir absolvição ao céu.
O mais trágico não é que monstros existam.
É que eles sempre chegam depois que já desistimos de compreender.
E talvez o verdadeiro sinal de que algo se rompeu não seja o grito, nem a fúria, nem o discurso. Talvez seja apenas isso: o momento em que o rio continua correndo, mas já não parece natural que ele corra.
por @ediicamara
Artigo inspirado no post de Magno Malta

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