A Cidade, o Desvio e o Ego em Obras



São Mateus/ES, atravessa um desses momentos raros em que a cidade parece escutar a si mesma andando. Desde o primeiro dia de 2025, quando Marcus da Cozivip assume a prefeitura, a paisagem urbana deixa de ser apenas um acúmulo de ruas, promessas e ruínas discretas, e passa a se comportar como um corpo em obras — aberto, em reconstrução, exposto ao futuro.

Há cidades que se constroem como quem escreve um tratado. Outras, como quem escreve um diário. E há aquelas — mais raras e mais trágicas — que se constroem como quem escreve um rascunho interminável, sempre à espera de uma versão definitiva que nunca chega.

São Mateus, neste momento de sua história, parece viver algo ainda mais inquietante: descobre que também ela possui um inconsciente.

Posta-se o indivíduo à margem do fluxo incessante da existência, observando o desfile de outros pela estrada que chamamos vida. Mas o que acontece quando o próprio observador é uma cidade? Quando o sujeito não é um homem, mas um organismo urbano inteiro, feito de ruas, vísceras hidráulicas, nervos elétricos, memórias políticas e desejos econômicos?

Toda obra pública é, em alguma medida, uma interpretação. Não apenas do espaço, mas do tempo. O contorno viário não é só um desvio de tráfego: é a confissão de que o centro já não suporta o peso que acumulou. É o reconhecimento de um limite. E todo limite reconhecido é uma forma tardia de autoconhecimento.

A cidade, como o sujeito, constrói pontes onde antes havia apenas travessias improvisadas. Mas também constrói para evitar passar por certos lugares de si mesma. O desvio é sempre ambíguo: pode ser progresso, mas também recalcamento. Pode ser solução, mas também esquiva.

Quando São Mateus investe em infraestrutura, em transparência, em eventos, em fábricas, em formação técnica, ela parece dizer: “eu quero existir no futuro”. Mas o futuro, como o inconsciente, não é um lugar — é uma pressão.

As obras de macrodrenagem, por exemplo, são quase uma psicanálise hidráulica: a tentativa de organizar aquilo que sempre retorna, aquilo que alaga, aquilo que transborda porque nunca encontrou linguagem suficiente para escoar.

E as fábricas? São também fábricas de identidade. Produzem empregos, sim — mas também produzem narrativas: “somos uma cidade produtiva”, “somos uma cidade em movimento”, “somos uma cidade que finalmente deu certo”. Toda cidade, como todo Ego, precisa dessas frases para não colapsar diante do espelho.

Os eventos — carnaval, expoagro, festivais — funcionam como momentos de sublimação coletiva. A cidade se fantasia para suportar a si mesma. Dança para não pensar demais. Celebra para não escutar o rangido estrutural de suas próprias contradições.

No fundo, porém, tudo isso gira em torno de uma pergunta silenciosa: o que São Mateus está tentando se tornar?

Porque nenhuma cidade se move apenas por razões técnicas. Move-se por fantasmas. Por promessas. Por dívidas simbólicas. Por comparações com outras cidades. Por uma espécie de inveja ontológica do que ainda não é.

Assim como o sujeito que se posta à margem da existência e observa outros Egos passando, São Mateus parece hoje observar outras cidades — Aracruz, os polos industriais, os centros mais “resolvidos” — e perguntar-se: “em que momento eu também chego lá?”

Mas talvez a pergunta mais honesta seja outra: o que significa “chegar” para uma cidade?

Toda ponte é também uma metáfora perigosa: sugere que há sempre um outro lado melhor. Toda estrada nova sugere que o presente é insuficiente. Toda obra é uma crítica muda ao que existia antes.

E, ainda assim, é impossível não construir.

Porque existir — seja como indivíduo, seja como cidade — é isso: um canteiro de obras erguido sobre um terreno que nunca foi realmente estável.

São Mateus está a todo vapor. Mas talvez o mais interessante não seja a velocidade. É o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, ela parece ter começado a se interpretar.

E toda interpretação verdadeira, como toda análise, não promete salvação. Promete apenas algo mais raro e mais difícil: consciência em movimento.

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Artigo de edii Camara - autor do livro que inspirou este ensaio “O ego, o inconsciente e o tempo







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