O barro ainda está úmido
O dia se inclina — e não sabemos mais se é tarde ou se é apenas o cansaço que escurece a luz.
O barro ainda sua. Ainda guarda o calor de mãos que o tocaram sem saber exatamente o que moldavam.
No princípio, não houve grito. Houve peso.
Um peso lento, quase mineral, descendo sobre as coisas.
A respiração espalhou-se como um trovão entre árvores imóveis — e, ainda assim, ninguém correu. Porque o mais perigoso dos desastres é aquele que não parece urgente.
Vivemos num tempo em que os acontecimentos se tornam ruído antes de se tornarem sentido. O excesso de nomes, datas, escândalos, manchetes, faz com que o mundo perca densidade. As coisas deixam de acontecer: passam.
E assim, quando algo se quebra, não é apenas o mármore. É o olhar.
O que primeiro se perde não é a justiça. É a capacidade de reconhecer um rosto.
Há um instante — sempre há — em que deixamos de ver pessoas e passamos a ver categorias. Multidões. Rótulos. Funções narrativas num enredo que já não escrevemos, apenas repetimos. Nesse instante, o barro endurece. E, quando endurece, já não lembra de onde veio.
Alguém escreve numa estátua.
Alguém se esconde de uma explosão.
Alguém não entende o que está acontecendo.
Alguém morre numa cela.
Mas o que vemos é apenas a palavra: caso.
E a palavra caso é uma maneira elegante de não dizer vida.
Perguntamos, então, com a seriedade ritual de quem já decidiu a resposta:
— O que ameaça mais o templo? A mão suja de barro ou os arquitetos do desvio?
O curioso é que as civilizações raramente caem quando os muros são pichados. Elas caem quando os critérios se dissolvem. Quando a balança deixa de medir e passa a encenar.
Toda tirania começa assim: não com botas, mas com exceções.
Não com gritos, mas com justificativas.
Não com violência, mas com argumentos razoáveis demais.
O medo é um pedagogo paciente. Ele não corre — ele educa.
Primeiro, ensina que certos nomes não devem ser ditos.
Depois, que certas piadas não devem ser feitas.
Depois, que certas perguntas não devem ser formuladas.
Por fim, ensina que certas pessoas não devem mais existir plenamente.
E então dizemos: ainda não é uma queda. É só uma inclinação.
Mas todo abismo começa como uma inclinação.
O mais eficaz dos regimes não é o que proíbe — é o que cansa. Cansa até que o coração aceite. Até que o olhar desista. Até que a exceção vire método e o método vire paisagem.
Hoje são eles, dizemos, com um alívio que parece prudência.
Mas toda frase que começa assim termina sempre da mesma maneira: em silêncio.
O barro lembra.
O corpo lembra.
A história lembra — ainda que nós não queiramos.
E talvez a pergunta nunca tenha sido “o que você tem a ver com isso?”.
Talvez a pergunta real seja outra, mais incômoda, mais funda:
Em que momento você aceitou que algumas vidas pesassem menos que o argumento?
Porque nenhum templo é destruído de fora antes de ser esvaziado por dentro.
E nenhuma liberdade morre de repente.
Ela é soterrada.
Grão por grão.
Como barro.
por @ediicamara
Artigo inspirado no post de Nikolas Ferreira

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