A Tragicomédia do Reconhecimento de Firmas



Há certos espetáculos na vida que, embora desprovidos de pompa, possuem uma tragicomédia tão pungente que até mesmo as musas do teatro grego, se porventura se aventurassem num cartório, soltariam uma lágrima discreta — ou, quiçá, um bocejo.  

Imaginemos, caro leitor, o nosso herói: Severino Servilho de Oliveira. Nome que, por si só, já é uma confissão de derrota. Severino não é daqueles que nascem para a glória, mas sim para a rubrica. Sua existência é uma sucessão de pequenos atos burocráticos, cada um mais insignificante que o outro, e no entanto — eis aí o paradoxo! — cada um mais vital para sua frágil noção de pertencimento.  

O cartório, esse templo sagrado da inutilidade documental, é o palco escolhido para sua epopeia. Entre paredes empoeiradas e funcionários cujas almas parecem ter sido laminadas junto com os papéis que carimbam, Severino avança com a coragem de um mártir prestes a enfrentar o leão — se o leão, claro, fosse substituído por Dona Custódia dos Carimbos, criatura cuja expressão facial sugere que ela mesma foi carimbada, em algum momento remoto, com a inscrição "Proibido Sorrir".  

E então surge o contraste sublime: enquanto Severino se debate com a caneta, como se estivesse tentando domar um animal selvagem, eis que adentra o recinto o Barão Bonifácio de Albuquerque, homem cujo nome soa como um trombone anunciando sua própria importância. O Barão não "assina documentos; ele "concede" sua firma, como um rei a dispensar favores. Severino, é claro, engole seco e se curva mentalmente, pois há hierarquias até mesmo na humilhação.  

O clímax da peça se dá quando, após minutos de angústia caligráfica, Severino entrega sua obra-prima: uma assinatura que oscila entre o ilegível e o patético. Dona Custódia a examina com o mesmo entusiasmo com que se olha para um cupom fiscal. E então, com a dramaticidade de quem anuncia o veredito de um júri, ela pronuncia:  

— "Pronto."  

Duas sílabas. Nada mais. E no entanto, para Severino, é como se as portas do paraíso burocrático se abrissem. Ele paga suas moedas (contadas, é claro, pois heróis trágicos nunca têm troco), agradece com a reverência de um vassalo medieval e se retira, vitorioso em sua derrota.  

E assim, caro leitor, encerra-se o ato. Severino volta à multidão, onde sua existência se dissolve como um traço de lápis mal apagado. Mas por um instante fugaz, ele foi "alguém" — ou pelo menos, alguém cuja assinatura foi reconhecida por um carimbo oficial.  

E nós, espectadores desta farsa, rimos. Rimos porque reconhecemos, no fundo, que todos temos um pouco de Severino Servilho em nós: ansiosos, servis, e eternamente à espera de que alguém, algum dia, nos diga "pronto" com a mesma solenidade com que se decreta um destino.  

Afinal, a vida não passa de uma sucessão de rubricas mal feitas e carimbos duvidosos. E quem disser o contrário, que apresente uma procuração autenticada. 

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