A Muralha da Mente
Como as Engrenagens de Arquimedes Mantiveram a Loba Romana Faminta por um Ano em Siracusa
"Por um observador das defesas de Siracusa, 214-213 a.C."
O ar salgado do Grande Porto costumava carregar o burburinho de mercadores, o riso das crianças e o trabalho honesto dos pescadores. Mas naquele ano, e no que se arrastaria depois, cheirava a medo, a fumo acre e ao fedor metálico do sangue. Roma estava à nossa porta. Não apenas Roma, mas Marcus Claudius Marcellus, um cão de guerra endurecido, com legiões que haviam provado o gosto da vitória desde a Gália até a Campânia. Eles vieram com suas quinquerremes imponentes, suas torres de cerco rangentes e a arrogância de quem se achava mestre do mundo conhecido. Esperavam que Siracusa, rica e orgulhosa, caísse como um figo maduro.
Não contavam com um velho. Um velho de olhos penetrantes e mente mais afiada que qualquer gládio romano: Arquimedes.
No início, os legionários nos muros romanos riam. Viam nossos preparativos, as bestas sendo rearmadas, as pedras empilhadas. Coisas de cerco, triviais para veteranos como eles. Marcellus, diziam, planejava tomar a cidade por terra e mar em um único e esmagador assalto. Ele alinhou seus navios, pontes de cerco prontas, a infantaria formigandosobre elas, escudos levantados, prontos para varrer nossas ameias.
Foi quando o inferno de Arquimedes desabou sobre eles.
Não eram as catapultas comuns que arremessavam pedras com uma trajetória previsível. Das nossas muralhas, as máquinas do velho – que ele chamava de "manganons" e outras invenções com nomes que mal compreendíamos – ganharam vida com um gemido gutural de madeira sob tensão. Vigas do tamanho de mastros de pequenos barcos, impulsionadas por feixes de tendões retorcidos, arremessavam projéteis que os romanos jamais tinham visto. Pedras de um talento de peso – mais de vinte quilos, imaginem! – que esmagavam as passarelas de assalto como cascas de ovo. Outras máquinas, menores e mais ágeis, disparavam uma saraivada de pedras menores, como uma chuva de granizo mortal, varrendo os conveses e semeando o pânico entre os legionários agrupados.
Lembro-me de ver um dos navios de assalto de Marcellus, uma gigantesca sambuca, aproximar-se perigosamente do setor de Achradina. Os romanos urravam, confiantes. Então, das muralhas, algo monstruoso se ergueu – um guindaste imenso, com uma garra de ferro na ponta, como a pata de um predador titânico. A "Mão de Ferro", alguns a chamavam. Com um ranger de cordas e o grito dos homens nos contrapesos, a garra desceu, cravou-se na proa do navio romano e, como um pescador fisgando um peixe teimoso, ergueu-o no ar. Gritos de terror substituíram os de guerra. Homens e equipamentos despencaram no mar enquanto o navio era sacudido e, por fim, esmagado contra as rochas ou simplesmente virado, afogando os que estavam abaixo do convés. Marcellus, ele próprio, assistiu horrorizado de seu navio-almirante. Viu sua frota orgulhosa ser tratada como brinquedos.
O ataque terrestre não se saiu melhor. As balistas de Arquimedes, ajustadas com uma precisão assustadora, podiam atingir um escudo a distâncias que os engenheiros romanos consideravam impossíveis. Escorpiões disparavam dardos que perfuravam armaduras como se fossem linho. Diziam que o velho corria pelas muralhas, ajustando as tensões, gritando ordens, seus olhos brilhando com um fogo febril. Ele não era um soldado, mas naquele momento, valia por mil.
E depois havia o "raio de calor". Boato? Loucura? Eu não estava lá para ver os primeiros relatos, mas os marinheiros romanos que capturamos, ou os que desertaram, balbuciavam sobre navios que subitamente irrompiam em chamas sob o sol forte, sem que nenhuma flecha incendiária tivesse sido disparada. Falavam de escudos polidos, grandes espelhos de bronze, alinhados nos muros, capturando o olhar do sol e focando-o num ponto de calor infernal. Lenda ou não, o medo que isso instilou foi real. Os capitães romanos mantinham seus navios a uma distância respeitosa, temendo a fúria invisível do sol de Siracusa, domado por um velho.
Marcellus era um homem teimoso, mas não era tolo. Após os primeiros assaltos sangrentos e inúteis, ele recuou. A palavra que nos chegou era que ele gracejou amargamente que Arquimedes usava seus navios como alvos para suas aulas de geometria. Mas por trás da piada havia o ranger de dentes da frustração. Aquele único homem, com suas máquinas infernais, havia paralisado o poderio de Roma.
O cerco, claro, não terminou aí. Transformou-se numa longa e árdua luta de fome, de pequenos combates, de traições. Mas por aquele primeiro ano, por doze longos meses, foram as armas de Arquimedes que formaram nossa muralha mais impenetrável. Elas nos deram tempo. Elas nos deram esperança. Elas mostraram ao mundo que a força bruta das legiões poderia ser desafiada, e até mesmo humilhada, pela pura genialidade de um único cérebro. Os gritos dos artilheiros de Arquimedes, o estrondo das pedras contra os cascos, o silvo das garras rasgando a madeira – essa foi a canção de Siracusa naquele ano, uma canção de desafio composta por um velho mestre, mantendo a loba romana, faminta e frustrada, do lado de fora de nossas portas. E cada dia ganho era uma vitória arrancada das mandíbulas da história.
> Arquimedes de Siracusa (c. 287 a.C. – c. 212 a.C.) foi um dos mais brilhantes cientistas e matemáticos da Antiguidade Clássica. Dentre muitas invenções, ele determinou com precisão notável para a época, o valor de "Pi" utilizando polígonos inscritos e circunscritos a um círculo.

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