É Belo Pensar no Outro
Há uma beleza estranha e quase sobrenatural em pensar no outro. Não falo daquela gentileza superficial, do “como vai?” jogado ao vento como um lenço branco, mas da verdadeira contemplação do outro — da sua dor, dos seus segredos, da escuridão que ele carrega dentro de si.
Você já parou numa fila de supermercado e observou o rosto da pessoa à sua frente? Não um olhar rápido, mas um estudo demorado, quase invasivo? Repare nas linhas ao redor dos olhos, na forma como os dedos tamborilam no balcão, na respiração contida de quem está cansado, irritado ou talvez à beira de algo pior. Se fizer isso direito, você sentirá um frio na espinha. Porque, por um instante, você saiu de si mesmo. E isso, meu caro leitor, é um pequeno milagre.
Eu escrevo sobre existência e suspense psicológico — humanos e não humanos — mas o verdadeiro horror nunca está no que salta das sombras, e sim no que já estava lá o tempo todo, escondido atrás dos olhos de alguém que você conhece. O mal floresce quando paramos de ver os outros como pessoas e os transformamos em abstrações: o mendigo, o político corrupto, o criminoso. Mas quando você se permite pensar no outro — realmente pensar — algo muda. Você começa a perceber que aquele assassino em série tinha uma mãe que o amava, que o tirano foi uma criança espancada, que o suicida deixou para trás uma carta cheia de desespero e alívio.
Isso assusta mais do que qualquer demônio. Porque é real.
Há uma história que eu gosto de contar — não uma de terror, mas uma que me persegue como um fantasma gentil. Certa vez, num sonho, um homem me escreveu uma carta. Ele estava preso a uma doença que o deixava acamado, e disse que meus livros o ajudaram a suportar a solidão da cela. “Às vezes, quando leio suas histórias, sinto que não estou sozinho”, escreveu ele.
Eu poderia ter jogado a carta fora. Poderia ter pensado: É só um criminoso, um homem ruim. Mas, em vez disso, eu li. E, por um momento, eu o vi. Um homem deitado em uma cama, utensílios jogados ao chão, tentando escapar — não do quarto, mas da própria mente.
Isso não o sara. Não some com sua dor. Mas me lembrou que, por trás de cada pessoa, há um ser humano que um dia foi uma criança inocente. E isso é o que me mantém acordado à noite.
Pensar no outro dói. É um exercício de vulnerabilidade, como caminhar de peito aberto em um campo de batalha. Você se expõe ao sofrimento alheio, e o sofrimento é contagioso. Mas há uma beleza nisso — uma beleza que queima como álcool em um ferimento.
Porque quando você pensa no outro — quando realmente pensa — você deixa de ser apenas você. Você se torna um pouco deles. E, nesse momento fugaz, você transcende a prisão do seu próprio crânio.
No final das contas, talvez seja isso que nos salve. Não heróis, não milagres, mas a simples e terrível coragem de olhar para alguém e dizer, mesmo que só no silêncio da sua mente: “Eu te vejo.”
E, às vezes, isso é o suficiente.

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