O Cálice e a Travessia
Há um cálice. Ele não é só um recipiente, mas um portal. Se inclinado no ângulo certo, a luz se fragmenta em espelhos, revelando sombras de um outro mundo, um mundo que existe sob a superfície, escondido entre as dobras do real e do imaginado. No fundo desse cálice está o coração – não um coração orgânico, pulsante, mas um coração feito de percepção, de vidro, de vento, de olhos que veem sem ver.
Não existe experiência sem um "Eu". Mas o que acontece quando o "Eu" se dissolve, quando não há um centro firme, apenas ecos que ricocheteiam de um lado a outro dentro da cáscara de um corpo? O mundo se torna um devaneio, um exílio sem nome. Não se distingue o real do fantasma. O indivíduo se torna um espectro de si mesmo, perambulando por corredores intermináveis, sem portas, sem janelas, sem um "Templo" onde repousar a visão.
A mônada espiritual, dizem, é indivisível. Mas há fendas no indivisível, há rachaduras pelo qual um mundo inteiro pode se infiltrar. Se essa mônada é cálice, então não é bolha. Uma bolha é uma prisão sem portas; um cálice, ao contrário, é passagem. Através dele, pode-se ver a interseção entre microcosmo e macrocosmo, o ponto em que o indivíduo se dilui no todo sem perder-se completamente. Mas apenas se os olhos do coração estiverem abertos.
E se não estiverem?
Então tudo é um jogo de sombras. Um teatro de aparências, onde as imagens deslizam umas sobre as outras, sem nunca se fixarem, sem nunca se tornarem algo mais que um reflexo sobre a superfície de um lago sem fundo. O mundo se torna um exílio permanente, uma terra deserta sem contorno, um lugar onde a contemplação é impossível porque não há Templo, e sem Templo não há eixo, e sem eixo não há viagem, apenas um vagar sem destino, sem retorno.
O cálice é posto diante de nós. Resta saber se o ergueremos aos lábios ou se deixaremos que permaneça intocado, acumulando poeira no altar do esquecimento.
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