Exílio Perdido


  

Eu desço as escadas em silêncio. O som dos meus passos não ressoa, como se meus pés não tocassem o solo. O ar ao redor tem um peso peculiar, uma densidade que não é exatamente física, mas que me mantém suspenso entre o que é real e o que não é. Tento lembrar se esta é minha casa, se já foi em algum momento. Mas a memória me escapa, dissolvendo-se como tinta na água.


Dentro do apartamento, tudo está no lugar: os livros alinhados na estante, a luz fraca do abajur sobre a mesa, o cheiro indefinido de madeira velha e café frio. Mas algo mudou. O espaço parece reduzido, comprimido como uma caixa que encolhe a cada minuto. O tempo corre em círculos, e cada objeto se torna uma âncora me puxando para o passado. O universo encolhe dentro de mim, embora eu não saiba exatamente quando começou a desaparecer.


Abro uma gaveta. Meus dedos tocam papéis antigos, cartões-postais nunca enviados, um relógio parado às três e meia. Reconheço os objetos, mas eles não me pertencem mais. Ou talvez eu não pertença mais a eles. Sinto uma desconexão irreversível, como se a pessoa que um dia organizou essas coisas fosse agora um estranho que me observa de algum lugar oculto.


Saio para a rua. A cidade se expande à minha frente como um grande organismo pulsante, mas eu permaneço à parte. O vento passa por mim sem resistência, como se meu corpo fosse translúcido. As vitrines exibem objetos que parecem ter sido arrancados de um outro tempo, um tempo onde eu ainda habitava o mundo. Meus olhos deslizam por rostos que não me reconhecem. O exílio é isso: não ser notado, não ser esperado. A cidade segue em seu ritmo indiferente, enquanto eu caminho por ela como um hóspede tardio em uma festa já terminada.


Mais tarde, deitado na cama, sinto o peso de um sono fragmentado. Sonho com corredores que não levam a lugar nenhum, portas que se fecham antes que eu consiga atravessá-las. No sonho, tento chamar alguém, mas a voz não sai. E então acordo, apenas para perceber que ainda estou preso dentro da mesma ausência.


No fundo, a perdição não é um lugar, mas um estado. A prisão não tem grades, apenas uma fronteira invisível entre o que eu era e o que me tornei. Eu olho para o teto escuro e sinto a realidade se desmanchar nas bordas.


Estou aqui, mas já fui embora.

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