A Dieta do Gnomo
Outras Formas de Me Perder
Na semana passada, comprei meu décimo sétimo gnomo de jardim. Não estava planejando, mas lá estava ele, na prateleira do supermercado, entre os adubos e as mangueiras de borracha, sorrindo com aquela cara de quem sabe que você já tem gnomos demais. "É o último", disse a mim mesmo, enquanto o colocava no carrinho, ao lado de um pacote de bolachas recheadas e um desodorante com cheiro de "montanha suíça" (que, convenhamos, deve ser o cheiro que os anjos usam quando vão à academia).
Minha esposa, Rose, revirou os olhos quando viu o novo membro da família. "Isso não é um jardim, é um manicômio de gnomos", ela resmungou, enquanto eu o posicionava estrategicamente ao lado do hidrante — o gnomo bombeiro, batizado de Reginaldo, agora vigia a caixa de correio com ar de quem desconfia até dos pardais. Rose tem razão, claro. Meu jardim parece uma convenção de anões de conto de fadas que deram errado. Mas há algo tranquilizador em acumular pequenos pedaços de plástico colorido. É como se, quanto mais eu comprasse, menos eu precisasse pensar no fato de que, lá no fundo, não faço ideia do que estou fazendo aqui.
E aqui estamos nós: eu, meus gnomos, e a sensação crescente de que a humanidade trocou a chave do paraíso por um cupom de desconto no Walmart. O que aconteceu com aquela história toda de "dominar a natureza"? Viramos especialistas em dominar *saldões*. Plantamos árvores sintéticas, bebemos água engarrafada em plástico que vai durar mais que nossos netos, e passamos horas discutindo se o iPhone 27 Pro Max tem câmera suficiente para capturar o vazio existencial do nosso brunch.
Outro dia, tentei explicar isso ao Reginaldo. "Nós nos tornamos gnominhos de jardim", falei, enquanto ele me encarava com aquele olhar vazio de quem já viu demais. "Somos decorativos, funcionais, mas sem raízes de verdade. O que você acha?" Ele não respondeu. Gnomos são péssimos em terapias de grupo.
A verdade é que nos vendem a ilusão de que controle é poder. Compre um carro elétrico, e você "salva o planeta". Compre um mindfulness app, e você "encontra a paz". Compre, compre, compre — até que sua alma esteja tão entulhada quanto meu jardim. E quando alguém questiona isso, é logo taxado de "reacionário" ou "hippie desatualizado". A resistência virou um meme.
Mas e se a resposta não for comprar mais, nem desistir de tudo? E se for algo tão simples (e ridículo) quanto decidir que, em vez de um novo gnomo, vou plantar uma semente de verdade? Ou sentar no quintal e deixar que uma lesma me conte histórias sobre o significado da vida? (Elas são ótimas nisso. Lentas, mas detalhistas.)
Não sei se vamos escapar da extinção da alma. Mas enquanto isso, vou continuar falando com o Reginaldo. Ele pode não ter todas as respostas, mas, diferentemente do meu smartphone, nunca me diz que minha bateria está acabando.
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