Dias Intermináveis
Erra-se, dizem-nos, como num labirinto escuro. E talvez seja essa a condição destes nossos dias, um vaguear por corredores que se parecem demasiado uns com os outros, sob uma luz artificial que achata as sombras e as promessas de saída. O mapa que nos deram, aquele do mundo científico, inerte, mecânico, repetitivo, parece prometer clareza, mas talvez seja a própria clareza a armadilha. Uma clareza que só reconhece o que pode ser medido, pesado, previsto dentro de margens de erro aceitáveis. Uma clareza que se assemelha mais à planificação de uma autoestrada do que à exploração de uma floresta antiga.
Nesses caminhos demarcados, onde se espera não haver fuga, circula-se com uma espécie de eficiência sonâmbula. Os passos são dados, as tarefas cumpridas, os relógios consultados. Mas há uma ausência que paira, um silêncio que não é paz, mas sim vazio. A prece, quando existe, torna-se "desinteressada", não por uma transcendência serena, mas por uma desconexão fundamental. É como tentar chamar por algo cujo nome se esqueceu, ou pior, em cuja existência já não se acredita verdadeiramente. Uma formalidade dirigida a um céu vazio, ou talvez apenas a um teto de escritório.
E as portas? Aquelas outras portas, as que não constam nas plantas baixas da razão instrumental, as passagens que se abrem nos sonhos, nos lapsos, nos silêncios atentos – essas são ignoradas. Talvez por medo do que espreita do outro lado, talvez por simples falta de atenção, ou por uma educação que nos ensinou a desconfiar de tudo o que não pode ser comprovado em duplicado. O mundo em que investimos os nossos esforços mais calculados, onde debruçamos as nossas mentes treinadas, revela-se estranhamente desabitado. Construímos catedrais de dados e algoritmos, arranha-céus de lógica e processo, mas a alma, essa entidade esquiva e talvez antiquada, parece ter ficado do lado de fora.
É uma imagem poderosa: as malas do imaginal deixadas à porta. Como se, ao entrarmos no grande edifício do progresso moderno, tivéssemos sido instruídos a deixar no bengaleiro não só os casacos molhados, mas também os sonhos, as intuições, os medos ancestrais, as alegrias sem causa aparente, toda a bagagem indisciplinada da nossa geografia interior. As malas contendo os mapas das estrelas desenhados por poetas, as bússolas que apontam para o desejo, os diários de viagens oníricas, as canções que nos ensinaram as nossas avós. Tudo considerado excesso de peso, contrabando numa alfândega que só permite a entrada do útil, do funcional, do rentável.
Mas o que acontece a um lugar – seja ele uma casa, uma cidade, uma civilização – quando as suas histórias mais profundas, as suas ressonâncias míticas, a sua capacidade de sonhar e de se surpreender são deixadas do lado de fora, acumulando poeira no patamar? Torna-se, talvez, precisamente isso: um labirinto escuro. Não porque lhe falte luz elétrica, mas porque lhe falta a luz que emana de dentro, a luz do significado que não se mede em lux ou em watts. Torna-se um espaço de dias intermináveis, onde a repetição não é ritmo vital, mas sim o ranger de uma máquina que esqueceu o seu propósito.
Errar num labirinto, contudo, não é necessariamente apenas perdição. Pode ser também uma forma de exploração, uma maneira de descobrir caminhos imprevistos, de tropeçar em clareiras escondidas. Talvez o erro não esteja no vaguear, mas na recusa em reconhecer a natureza do terreno. Talvez a saída não esteja em seguir o mapa fornecido, mas em parar, em escutar o silêncio que não é vazio, mas plenitude à espera. Em abrir, nem que seja por uma fresta hesitante, a porta onde deixámos as nossas malas esquecidas. Talvez aí, no conteúdo poeirento e negligenciado do imaginal, se encontre não a fuga, mas a chave para habitar verdadeiramente o labirinto, transformando os seus corredores escuros em passagens repletas de ecos e possibilidades, e os dias intermináveis em algo mais parecido com uma dança lenta, atenta aos sussurros que vêm de dentro e de fora dos muros.
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