O Último Ofício
Sinfonia Inacabada de um Fracasso Anunciado
A frase ressoava em mim como um mantra tortuoso: "Todo emprego é um fracasso... exceto o último... Quando saberei?". Uma sentença talhada na pedra da incerteza, ecoando nos corredores labirínticos da minha alma profissional. Um eco que me perseguia, sussurrando verdades incômodas sobre a natureza efêmera da minha labuta, sobre a fragilidade do meu senso de propósito.
A cada novo amanhecer, a cada nova função, eu me entregava à dança frenética da engrenagem do sucesso. Mergulhava de corpo e alma, buscando avidamente a promessa de realização, o elixir da satisfação. Mas, invariavelmente, o encanto se dissipava, a paixão arrefecia, e a rotina implacável esmagava a centelha inicial. O fracasso, então, não era um evento isolado, mas sim uma sombra constante, um espectro que pairava sobre cada projeto finalizado, cada meta alcançada.
A fenomenologia do meu trabalho se revelava cruelmente clara: cada etapa era apenas um fragmento incompleto, um verso isolado de uma canção cuja melodia final permanecia oculta. Preso na voragem do presente, imerso na experiência, eu era incapaz de vislumbrar a tapeçaria maior que a vida tecia. Apenas no crepúsculo, quando o sol da carreira se pusesse, seria possível contemplar a totalidade da obra e, talvez, decifrar seu significado. Gadamer, com seu horizonte hermenêutico, sorria enigmaticamente em algum lugar do além.
O existencialismo, com sua crueza libertadora, desnudava a verdade nua e crua: eu estava condenado à liberdade de escolher, de errar, de recomeçar. Cada emprego era um passo em falso, uma tentativa frustrada de moldar a mim mesmo à imagem e semelhança de um ideal inatingível. A insatisfação era a bússola, a inquietação, o motor. O "último emprego" não seria, necessariamente, a apoteose do sucesso, mas sim a resignação diante da finitude, o silêncio final onde o julgamento se torna irrelevante. Sartre, com seu cigarro eterno, acenava com a cabeça em concordância.
A dialética hegeliana me atormentava com a busca incessante por reconhecimento. Eu trabalhava, suava, sangrava, na esperança vã de que o mundo, ou pelo menos meu chefe, reconhecesse o valor do meu esforço. Mas o aplauso tardava, a validação se mostrava esquiva. O fracasso, nesse contexto, era a ausência de espelhos que refletissem minha imagem com benevolência. O "último emprego", então, seria o palco onde finalmente receberia a ovação merecida, ou o abismo onde me afogaria na solidão do anonimato? Hegel, com seu olhar penetrante, permanecia impassível.
"Quando saberei?", a pergunta ecoava no vazio. Era a angústia primordial do ser humano, confrontado com a incerteza do futuro, a impossibilidade de controlar o destino. Era a consciência dilacerante de que, talvez, nunca soubesse. De que a busca por um sentido definitivo no trabalho fosse uma quimera, uma miragem no deserto da existência.
Talvez o segredo não estivesse em encontrar o emprego perfeito, o "último", que apagasse todos os fracassos anteriores. Talvez estivesse em aceitar a incompletude inerente à jornada, em abraçar a impermanência, em encontrar beleza nas rachaduras. Talvez, no fim das contas, o fracasso não fosse o oposto do sucesso, mas sim um degrau necessário para a construção de uma vida autêntica.
E, assim, continuava a trilhar meu caminho incerto, carregando o peso da pergunta nas costas, mas também a esperança tênue de que, um dia, no crepúsculo da minha jornada, o silêncio se transformasse em uma sinfonia de aceitação, e o fracasso, em um aprendizado.
Afinal, a vida, como o trabalho, é uma obra em constante construção, um rascunho inacabado que só encontra sua forma final na eternidade.
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