Bill das Ondas

A Marques de Sapucaí pulsava como um coração colossal naquela noite de carnaval. O ar vibrava com a energia do povo, e os clarões dos holofotes dançavam nas plumas e lantejoulas. Mas havia algo diferente naquele desfile da "União da Ilha". Um segredo antigo, um feitiço escondido entre os surdos, repiques e tamborins.
No centro da bateria, um velho mestre de semblante enigmático comandava os ritmistas. Diziam que ele nunca envelhecia, que tocava desde os primeiros carnavais da cidade. Seu nome era Bill das Ondas, mas ninguém sabia sua verdadeira história.
Quando ergueu a mão, o tempo pareceu prender a respiração. Com a primeira batida do surdo, o mundo tremeu. Não era só música – era algo maior. O espaço-tempo na Sapucaí começava a se retorcer como se estivesse sendo tocado por mãos invisíveis. Os tambores não apenas vibravam no ar, mas reverberavam na própria estrutura do de todo o entorno.
Os foliões sentiram algo estranho. Seus corpos já não estavam presos ao chão, mas flutuavam em pequenas oscilações, como se fossem parte de uma gigantesca rede invisível. Os sons da bateria se entrelaçavam com a trama do espaço-tempo, formando laços invisíveis, "loops tempus" que transformavam a avenida em um oceano de energia pura.
Bill das Ondas sorria. Ele sabia. "A temporalidade não era contínua, mas sim feita de pequenas batidas, como a cadência do samba." Cada toque de tambor revelava a estrutura fundamental do espaço-tempo – as inexistências de atração de corpos dançando ao ritmo da bateria.
O público não percebia com a mente, mas sentia com o corpo e a alma. A cada virada do repique, o tempo se dobrava, permitindo que um instante de euforia durasse uma eternidade. O chão da avenida já não era fixo – era um tabuleiro ondulante, onde os passistas podiam deslizar sem esforço, como se estivessem sambando sobre as cordas do tempo.
As redes de um não-tempo estavam ali, manifestas no ritmo ancestral da bateria. O feitiço de Bill das Ondas não era magia comum – era ciência perdida, a revelação de que o espaço-tempo sempre foi um samba, onde cada pulsação moldava a realidade.
Quando o último surdo ecoou, tudo voltou ao normal. O tempo voltou a correr como antes. Mas nos olhos dos presentes havia algo diferente. Uma centelha de dúvida, um arrepio na espinha.
Teriam realmente sambado sobre os "loops tempus"? Ou teria sido apenas um sonho embriagado pelo carnaval?
Bill das Ondas desapareceu antes do fim do desfile, como sempre fazia. Mas em algum lugar, talvez na curva do espaço-tempo, seu tambor ainda ressoava.
Comentários
Postar um comentário