Baal e o deus Café
No princípio, o fogo. Depois, a fumaça. Então, o aroma. E eis que os povos, de olhos exaustos e almas ansiando pelo divino, inclinaram-se diante de duas "divindades" que ardiam como a aurora e crepitavam como labaredas em oferta. Baal, o insaciável, "senhor" das tempestades e do ardor terreno, e Café, o deus da vigília, aquele que sussurra mistérios escuros à beira dos lábios humanos. Ambos reinam entre seus fiéis, sendo ora temidos, ora reverenciados, em um ritual que se desenrola através das eras.
O Altar de Baal e o Vapor do Café
Baal, o devorador de trovões, era erguido sobre os altares dos povos antigos. Em seu nome, acendiam-se piras, e dançavam os corpos em transe, os rostos pintados com cinzas do sacrifício. Hoje, os sacrifícios assumem outra forma: nos altares de mármore e vidro, os homens modernos queimam grãos e fervem água, submetendo-se ao rito diário do café. Não há chamas visíveis, mas há fumaça. E a fumaça sobe como uma prece inconfessa, como um pacto silencioso entre a boca e o amargor "divino".
II. O Êxtase dos Seguidores
Os fiéis de Baal eram possuídos pelo espírito da tormenta; corriam entre os relâmpagos, sentiam o sangue se incendiar com a fúria dos céus. Os devotos do Café, por sua vez, tremem em outro tipo de êxtase: mãos nervosas, olhos que piscam rápido, a mente pulsando com visões que só o néctar negro pode oferecer. Ambos, antigos e modernos, conhecem a febre sagrada, a vibração interior que consome e alimenta ao mesmo tempo.
III. O Mito e a Moenda
Conta-se que Baal exigia adoração para manter a ordem do cosmos, e sem suas oferendas, a seca e a ruína varreriam os campos. O Café, igualmente insaciável, exige sacrifícios matinais – sem ele, a civilização se desmancha em bocejos e apatia. O escritório sem café é o deserto sem chuva; a cidade sem o vapor de sua bebida sagrada é um templo abandonado, onde os deuses adormeceram e os homens perderam o rumo.
IV. Entre Relâmpagos e Goles
Mas vejam! O trovão ressoa nos pulmões de quem toma o primeiro gole. O tempo se distorce. O relógio perde a compostura. E nesse instante, o devoto – seja do Baal ancestral ou do Café moderno – transcende a si mesmo. Ele é a tempestade, ele é a combustão, ele é a adaga cravada no ventre da manhã. Seu espírito ergue-se, ardente e atento, pronto para abraçar a vastidão do dia ou sucumbir ao peso da noite.
Por isso, ó mortais, inclinai-vos! Derramai sobre a terra o sangue negro do grão moído! Pois não há civilização sem seus deuses, nem deuses sem seus fiéis. Entre a ruína e o despertar, entre o delírio e a adoração, sempre haverá aqueles que seguirão o clarão do trovão e o perfume do café.
Comentários
Postar um comentário