Lufino
Num quintal onde o sol se espreguiça entre as folhas de uma mangueira, um cão pequeno, de pelo desgrenhado e olhos que carregam o peso de mil trovoadas, encara um outro, um gigante de patas largas e dentes que parecem feitos de luar afiado. O ar tremia com os latidos, mas não era apenas som — era um confessionário de almas caninas, um grito torto de medo que pedia, em silêncio, por paz.
O cãozinho, que chamaremos de Lufino, não latiu por bravura. Seu corpo inteiro era uma corda esticada, pronta a romper-se, as pernas tortas como galhos secos que o vento insiste em dobrar. Ele tremia, não de frio, mas de um pavor que nascia nas entranhas, aquele tipo de medo que tem cheiro de terra molhada e gosto de ferro na língua. Diante dele, o cão maior, um titã chamado Trupus, apenas o fitava, os olhos semicerrados como quem lê um livro já conhecido. Trupus não precisava latir — seu silêncio era uma montanha, seu porte, uma tempestade parada no tempo.
Entre os dois, o vento carregava folhas e sussurros. Lufino, com o coração batendo como tambores de festa junina, queria dizer algo que suas cordas vocais não alcançavam. Cada latido seu era uma súplica disfarçada, um "deixe-me em paz" que se vestia de coragem para não parecer rendição. Ele não queria guerra, não queria o confronto que o destino parecia costurar com fios invisíveis. Queria apenas o canto dos passarinhos, o ronco manso da sesta sob a sombra da mangueira, a paz que lhe escapava como água entre os dedos.
Mas o inusitado deste quintal não permitia finais simples. Enquanto Lufino ladrava, o chão parecia pulsar, como se a terra entendesse o que ele não dizia. Uma borboleta amarela, dessas que carregam pedaços de sonhos, pousou entre os dois cães, e por um instante — um instante que durou o tempo de um suspiro — Trupus desviou o olhar. Foi o bastante. Lufino, com seu medo torto ainda agarrado ao peito, deu um passo atrás, depois outro, até que seus latidos viraram silêncio, e o silêncio virou trégua.
Naquele quintal, onde o medo dançava com a paz numa coreografia desajeitada, os dois cães não se tornaram amigos, mas também não se tornaram inimigos. A borboleta levantou voo, o sol continuou seu bordado de luz, e Lufino, com o rabo ainda baixo, sentiu que, talvez, a paz não fosse um lugar, mas um momento — torto, imperfeito, mas seu.
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