O Abismo do Ser
O Abismo do Ser
Uma Jornada Corbiniana em Busca do Eu Profundo
Ensaio inspirado em passagem do livro "O Peso do Agora" por edii Camara
Quem sou eu? Essa pergunta, aparentemente simples, carrega consigo o peso de um labirinto infinito. Não é uma questão que se resolve com palavras superficiais ou respostas prontas; ela exige uma imersão no abismo do ser, onde as fronteiras entre o visível e o invisível se dissolvem. Inspirado pela perspectiva corbiniana, essa busca não é apenas um exercício intelectual, mas uma travessia mística e existencial para acessar aquilo que jaz além da diversidade das formas e das máscaras que vestimos ao longo da vida.
Desde o momento em que nascemos, somos lançados numa narrativa que nos define por atributos externos: nome, corpo, história, cultura, relações. Somos moldados pelo tempo, pelas expectativas alheias e pelas limitações impostas pelo mundo sensível. Contudo, essas camadas são apenas véus que encobrem algo muito mais profundo — uma essência imanente, eterna e indestrutível, que permanece incólume diante das vicissitudes da existência. No dizer de Henry Corbin, trata-se de um "eu" espiritual, um núcleo divino que transcende a materialidade e habita um espaço intermediário entre o humano e o divino: o "mundus imaginalis".
Nessa dimensão intermediária, o eu verdadeiro não é algo que possamos capturar com os sentidos ou mesmo com o raciocínio lógico. Ele é antecedente às nossas identidades contingentes, pré-existente às escolhas e experiências que acumulamos ao longo da vida. É como se fôssemos simultaneamente viajantes e destinos, buscando retornar a um lar que nunca deixamos de habitar, mas que frequentemente esquecemos. Esse esquecimento não é acidental; ele faz parte do jogo cósmico, da condição humana que nos impulsiona a buscar, errar, sofrer e, finalmente, redescobrir.
A filosofia de Corbin nos convida a considerar que essa busca não é solitária. Ela ocorre num diálogo constante com figuras arquetípicas, com imagens e símbolos que emergem do inconsciente coletivo e pessoal. São esses arquétipos que nos guiam na jornada rumo ao nosso eu mais íntimo, funcionando como espelhos que refletem fragmentos da nossa alma. O "ta'wil", método interpretativo tão caro a Corbin, ensina-nos a decifrar essas imagens simbólicas, a traduzir o aparente para o essencial, o literal para o espiritual. Assim, cada sonho, cada encontro significativo, cada obra de arte ou texto sagrado pode ser visto como um portal para o conhecimento de si mesmo.
Mas por que essa busca é tão urgente? Porque, enquanto permanecemos presos às ilusões do ego e às convenções sociais, vivemos uma vida que não é inteiramente nossa. Somos marionetes de um teatro cujo roteiro foi escrito por outros — pais, professores, sistemas políticos, religiões institucionalizadas. A libertação dessa prisão exige coragem, pois implica enfrentar o vazio que surge quando abandonamos as certezas convencionais. É nesse vazio, entretanto, que encontramos o silêncio fecundo, o espaço onde a alma pode respirar e se expandir.
Corbin fala da importância do amor nessa jornada. Não o amor romântico ou sentimental, mas o amor como força metafísica, como magnetismo que atrai o ser humano em direção à sua origem divina. Esse amor é o fio condutor que nos une ao nosso eu superior, ao "Ipseidade", termo cunhado por Corbin para designar a individualidade absoluta e única de cada ser. O "Ipseidade" não é uma abstração, mas uma presença viva, pulsante, que espera ser reconhecida e celebrada.
Portanto, quem sou eu? Sou, antes de tudo, um mistério em processo de revelação. Sou uma alma encarnada que, embora pareça limitada pelo tempo e pelo espaço, possui raízes no eterno. Minha busca de significância não é uma tarefa opcional; é a própria razão de minha existência. Cada passo dado nessa direção é um reencontro com a totalidade de meu ser, com aquela centelha divina que jamais se apaga, ainda que esteja oculta sob camadas de esquecimento.
E assim, guiado pela sabedoria corbiniana, entendo que a jornada em direção ao eu não tem fim. Ela não culmina num destino final, mas se desdobra continuamente, como uma espiral ascendente. Cada vez que me aproximo do centro, descubro novas profundezas, novos horizontes a explorar. E nessa exploração incessante, aprendo a dançar com o paradoxo: sou ao mesmo tempo finito e infinito, mortal e eterno, fragmento e totalidade.
No fundo, compreendo que o "quem sou eu?" não será respondido com palavras, mas vivenciado na plenitude do instante presente. É aqui, neste agora, que o eu verdadeiro se manifesta, fugaz e inefável, como um sopro divino que anima a criação e nos chama de volta para casa.

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