Formiga


 

Sob o véu do silêncio, uma cidade nasce de conexões invisíveis que se estendem no éter. Neste livro, mergulho na tapeçaria de um tempo de uma cidade que pulsa ao ritmo de uma ancestralidade. As suas avenidas e os seus bairros são ilhas de um pensamento disperso. É uma história que se desenha por si só, guiado por uma lógica que a mente humana mal pode conceber.

O livro, a se desenvolver, estabelece-se num labirinto de possibilidades que se entrelaçam. Venha, perca-se comigo nos becos de uma cidade - onde a beleza reside em sua complexidade humana.  


Este primeiro capítulo - confira abaixo - é um olhar para esse momento de génese, onde um primeiro momento é traçado, definindo o rumo de tudo o que virá a ser. 

 

Capítulo 1 

A Mão Fria e o Olhar Vazio

A névoa, densa e fria como o toque do véu de uma noiva morta, serpenteava entre as cruzes de madeira tortas e as lápides de mármore lascado do cemitério de Formiga. Cino, com suas mãos calejadas, mas curiosamente alheias ao frio que parecia corroer a própria existência, empunhava a pá. A terra úmida e escura grudava em suas botas gastas, cada pegada um som abafado na sinfonia melancólica do crepúsculo. Era o seu ofício, o seu eterno labor: o de receber os recém-chegados, aqueles que a picada da vida, ou a falta dela, cessara de vez.

Cino não se lembrava de quando, exatamente, começou a sua "profissão". As memórias eram como gravuras desbotadas, borradas pela umidade e pelo tempo. Sabia que era um morador de Formiga, uma cidade que pairava entre o real e o mítico, aninhada nas entranhas de Minas Gerais, onde a terra guardava segredos mais profundos que os dos seus mortos. Sua casa, uma construção modesta nos arredores do cemitério, exalava o mesmo aroma terroso e úmido que o cercava durante o dia. As paredes, outrora caiadas, agora ostentavam um verde musgo que se aprofundava com as chuvas e o tempo.

Naquela tarde em particular, a terra parecia mais pesada, mais resistente. O recém-chegado, um homem de feições crispadas pela dor e pela surpresa, repousava no caixão de pinho simples, um convidado indesejado em sua última morada. Cino trabalhava com a familiaridade de quem executa um ritual ancestral, um balé macabro onde a terra cedia aos seus movimentos firmes. Contudo, algo naquele enterro era sutilmente dissonante. O silêncio, que usualmente era uma manta reconfortante sobre a dor, parecia agora um grito contido.

Enquanto a pá cavava, a mente de Cino vagava, não por lembranças pessoais, mas por padrões. Padrões que ele observava nas sepulturas, nas cruzes tortas que pareciam formar um emaranhado de linhas sobre o solo, nas lapides dispostas em um quase perfeito padrão que o fazia lembrar das "arestas" e "vértices" que um antigo e enigmático viajante, um tal de Saint-Hilaire, teria mencionado em seus devaneios sobre as "redes" da vida. Cino, sem saber o porquê, sentia uma afinidade estranha com esses "grafos" que pareciam conectar tudo e todos, mesmo na quietude do cemitério.

Ele já havia sepultado centenas, talvez milhares, de almas em Formiga. Via os rostos que vinham se despedir, as lágrimas que rolavam, os sussurros de saudade. Mas algo naquele olhar vazio da noiva recém-chegada, Dona Amélia, contrastava com a melancolia esperada. Havia uma quietude, uma ausência de movimento nas pupilas que não era apenas a do último suspiro. Era uma ausência de vida que Cino, em sua própria, particular e esquecida condição, compreendia com uma clareza aterradora.

O caixão foi baixado com um rangido que parecia ecoar do próprio âmago da terra. As pás de terra, arremessadas com precisão sobre a madeira, criavam um montículo crescente. Foi então que Cino notou. Não era apenas a quietude no olhar de Dona Amélia, mas a sua própria inércia. O suor não escorria por sua testa, o ar não se condensava em sua respiração, o frio gélido que emanava do solo não lhe arrepiava a pele. Seus movimentos eram fluidos, mecânicos, desprovidos da resistência que o próprio ato de mover o corpo deveria impor.

A pá bateu em algo duro. Não era uma pedra, nem um osso. Cino, com um lampejo de curiosidade que há muito tempo não sentia, agachou-se e começou a remover a terra com as mãos. Surgiu um pequeno objeto, um relicário de prata escura, adornado com intrincados entalhes. Ao abri-lo, seus olhos, que raramente registravam mais do que a tarefa em mãos, fixaram-se em uma miniatura. Era um retrato, desbotado pelo tempo, de um homem com um olhar incrivelmente familiar. Era ele. Cino.

Um arrepio, este sim real, percorreu o que ele pensava ser sua espinha dorsal. O retrato não era do homem que ele era, mas do homem que ele tinha sido. E ali, diante de si, em um caixão recém-fechado, ele via a prova silenciosa de um esquecimento monumental. Dona Amélia, a mulher de olhar vazio, não era apenas a recém-falecida. Ela era... ela era ele, de alguma forma. Ou, talvez, ele fosse apenas uma sombra projetada na tela da vida, um coveiro eterno que, em algum ponto do tempo, em algum cruzamento de "arestas" e "vértices", havia esquecido de atravessar para o outro lado.

O som de passos se aproximando quebrou o feitiço do seu momento de epifania aterradora. Era o vigário, um homem enrugado e com o olhar cansado, que vinha recitar as preces de praxe. Cino, com o relicário firmemente apertado na mão, ergueu-se. Seu corpo, antes um instrumento de trabalho, agora parecia uma jaula fria e vazia. O esquecimento que o protegia, que o mantinha a salvo da melancolia do seu ofício, começou a se desfazer como uma teia de aranha ao vento.

Ele olhou para o caixão, depois para o relicário em sua mão. O nome de Dona Amélia ecoava em sua mente, uma melodia dissonante com a imagem do homem no retrato. Quem era Dona Amélia? E quem era, de fato, Cino, o coveiro de Formiga, que parecia ter enterrado mais do que apenas os mortos? Uma sensação de vertigem tomou conta dele, não a vertigem do mundo físico, mas a vertigem de um abismo existencial que se abria diante de seus pés. Ele havia esquecido de sua própria morte, e agora, confrontado com a evidência, percebeu que a sua vida era um paradoxo ambulante, um fantasma que teimosamente se recusava a deixar o palco. O choque não era apenas o do reconhecimento, mas o da súbita consciência de que, talvez, ele nunca tivesse realmente vivido. E a maior das tragédias, ele sentia naquele momento, era que ele não tinha a mínima ideia de como começar a fazê-lo. O cemitério, antes o seu refúgio, transformara-se em um espelho distorcido, refletindo a sua própria, inimaginável, ausência.  


.. continua?! 


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