Vassalagem
O Vazio no Deserto ...Horácio, em sua sabedoria antiga, já nos alertava para a fuga do homem de si mesmo, mas é nas intuições de "Corbin" que essa fuga assume contornos de uma tragédia moderna, tecendo um cenário onde a desconexão do ser consigo e com o mundo se aprofunda em abismos de "alienação". A frase guia nos dado por edii Camara "O homem despovoa o mundo em si próprio e avança perigosamente a ser vassalo de poderes dominantes desconhecidos e alheios, ao monoteísmo de mercado e sua extrema perdição no mundo pobre da matéria no espaço" não é apenas uma sentença; é um alerta, um grito em meio ao silêncio ensurdecedor de uma sociedade cada vez mais imersa em superficialidades.
Corbin nos convida a uma "introspecção dolorosa": o homem despovoa o mundo em si próprio. O que isso significa? Significa a perda paulatina da "riqueza interior", do "universo simbólico", da "capacidade de sonhar" e de "habitar a própria alma". Em um mundo que valoriza o externo, o material, o mensurável, a vida interior é relegada a um segundo plano, empobrecida e silenciada. Perdemos a conexão com nossos "mitos pessoais", com nossa "história ancestral", com a voz que ecoa das profundezas do ser. Esse vazio interior, essa paisagem desolada dentro de nós, torna-nos "vulneráveis", suscetíveis a ser preenchidos por forças externas que se apresentam como soluções, mas que, na verdade, nos aprisionam.
É nesse vácuo que os "poderes dominantes desconhecidos e alheios" se instalam. Não se trata de uma conspiração oculta, mas de uma teia complexa de "influências" que moldam nossa percepção da realidade. São os "algoritmos" que ditam o que vemos e o que pensamos, as "narrativas midiáticas" que constroem verdades convenientes, as "pressões sociais" que nos forçam a um comportamento padronizado. Tornamo-nos "vassalos" dessas forças, perdendo a autonomia do pensamento e da ação, navegando em um mar de informações e estímulos que nos impedem de ancorar em nós mesmos.
No centro desse cenário sombrio, Corbin aponta para o "monoteísmo de mercado". Se antes o homem se curvava a deuses ou ideologias que prometiam salvação transcendente, agora a "mercadoria" e o "consumo" assumem o papel de divindades. O "mercado" não é apenas um sistema econômico; ele se tornou uma "força onipresente", com seus próprios dogmas, rituais e promessas de felicidade. A "compra", a "posse", o "acúmulo" são os novos mandamentos, e a "prosperidade material" a única forma de redenção.
Nesse culto ao mercado, tudo é convertido em "valor monetário". As relações humanas, a arte, a natureza, até mesmo a espiritualidade, são instrumentalizadas e precificadas. A "vida" se torna uma "extensa vitrine" onde somos tanto consumidores ávidos quanto produtos a serem consumidos. O "sucesso" é medido pela capacidade de gerar riqueza e consumir, e a "felicidade" é atrelada à aquisição de bens. Essa visão "reducionista" e "materialista" do mundo empobrece nossa experiência, limitando-a a um ciclo incessante de desejo e satisfação efêmera.
-
A culminância desse processo é a "extrema perdição no mundo pobre da matéria no espaço". A riqueza prometida pelo monoteísmo de mercado revela-se uma "ilusão". O acúmulo material não preenche o vazio interior; ao contrário, aprofunda-o. O foco exclusivo na "matéria" nos afasta da "dimensão espiritual", da "busca por sentido", da "conexão com o transcendente". O "espaço" aqui não é apenas o físico, mas também o "espaço da existência", que se torna desolado, sem profundidade, sem as cores vibrantes que a vida interior e a espiritualidade poderiam oferecer.
A "perdição" reside na "fragmentação do ser", na perda da "totalidade". Vivemos em um mundo de "aparências", onde a autenticidade é sacrificada em nome da conveniência e da superficialidade. A "natureza" é vista como recurso a ser explorado, e não como fonte de inspiração e conexão. As "relações humanas" se tornam transacionais, desprovidas de verdadeira intimidade e afeto.
A intuição de Corbin nos desafia a olhar para dentro, a "despovoar o mundo exterior de suas falsas promessas" para "repovoar o nosso próprio mundo interior". Somente assim poderemos nos libertar das amarras do monoteísmo de mercado e dos poderes alheios, reconectando-nos com a riqueza de nossa própria alma e com o verdadeiro sentido de nossa existência. É um chamado urgente à "resistência interior", à "busca por um sentido" que transcenda a lógica do consumo, e à construção de um mundo onde a "plenitude do ser" seja mais valorizada que a "opulência da matéria".
Será que estamos prontos para essa jornada de retorno a nós mesmos?

Comentários
Postar um comentário