À Margem do Fluxo

 

 

O Espectro do Ego no Desfile da Existência .. 

Posta-se o indivíduo à margem do fluxo incessante da existência, observando o desfile de outros Egos que transitam por essa estrada que denominamos vida. E o que vê? Figuras apressadas, máscaras bem costuradas, gestos ensaiados — uma procissão de sombras que acreditam, cada uma, ser a única substância sólida em um mundo de vapor.

O absurdo começa aqui: na ilusão de que somos espectadores privilegiados, quando, na verdade, já fomos arrastados pela corrente antes mesmo de percebermos que sequer sabemos nadar. A vida não pede licença; ela nos atropela com sua indiferença metódica. E nós, em nossa soberba existencial, ainda nos debatemos contra a evidência de que somos tão descartáveis quanto as folhas que o outubro abandona.

Os outros Egos que passam — esses estranhos espelhados em nossos olhos — são meros reflexos da mesma farsa. Cada um carrega sua bagagem de certezas frágeis, suas narrativas pessoais tão bem elaboradas quanto castelos de areia na maré alta. Conversam, riem, amam, sofrem, como se houvesse um significado último a ser decifrado, um prêmio escondido no final do labirinto. Mas o labirinto não tem centro, e o prêmio é a desilusão.

E no entanto, insistimos. Construímos carreiras, amizades, legados, como se a morte fosse um detalhe a ser resolvido depois. Cultuamos a permanência em um universo que só entende de decomposição. O ego, esse mentiroso contumaz, assegura-nos que somos diferentes, que o nosso amor, a nossa dor, a nossa existência têm um peso cósmico. Mas o cosmos, quando muito, nos responde com silêncio.

Talvez a única sabedoria possível seja a do deserto: aprender a sentar-se à beira do caminho e assistir, sem esperança nem desespero, ao espetáculo vazio. Não há lição, não há moral, não há sentido. Apenas o fluxo, sempre o fluxo, levando consigo os Egos que um dia acreditaram ser donos de si.

No fim, restará apenas o rio. E quem estiver à margem, por um breve instante, ainda se iludirá pensando que não faz parte da correnteza.

por  eddi Camara

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