Contemple os Peregrinos
Um cântico à busca inquieta ..
Contemple, irmão!
Os que caminham sobre o pó da estrada sem fim.
Vocês não veem seus rostos? Banhados pelo sol da esperança e pela sombra da inquietude.
São os Peregrinos.
Filhos do Desejo, sim — um desejo que arde como brasa oculta na palma da mão, um anseio que os impele para diante, sempre adiante, sob o céu mutável.
Órfãos da Origem, é preciso dizer a verdade: esquecidos do Jardim Primordial, da Fonte que sacia sem deixar sede. Caminham com a lembrança de um sabor na língua, mas sem recordar o nome da fruta.
Alma, eu sei que você está observando.
Esses filhos órfãos marcham, sem sombra de dúvida, sobre as pegadas de uma dor que não veem, e não sobre a terra crua.
Sim, é uma dor sutil como o rastro do vento no deserto. A dor não é aquela que grita, que sangra, que quebra ossos. É mais profunda. É a dor da separação. A dor do esquecimento é real. Carregar um tesouro dentro do peito e vagar como mendigo, questionando a todos: "Onde está a riqueza?" é uma dor que se deve enfrentar.
Observe seus passos!
Cada movimento é uma prece muda.
Cada poeira levantada é um incenso oferecido ao Vazio que anseia ser preenchido.
O desejo que os gerou é a mesma chama que os consome. Buscam água no oásis do mundo, esquecidos de que o verdadeiro manancial jorra dentro, sob as ruínas do próprio ser.
"Mais além!", ordena o Desejo.
"Volta!", ordena a Origem, em uma língua que seus ouvidos, atordoados pelo ruído da estrada, já não conseguem decifrar.
A dor invisível sob seus pés é a mestra silenciosa.
É a saudade.
Eles sentem saudade do lar, mesmo tendo esquecido como nele habitar.
É a lembrança de uma União tão completa que sua falta se tornou a única paisagem conhecida. Essa dor-guia não os fere para machucar, mas para despertar. Cada passo incerto sobre seu rastro é um chamado: Acorda, dorminhoco! O que buscas lá fora já repousa, intacto, no altar do teu coração."*
Contemple-os, não com piedade, mas com o espanto de quem reconhece o próprio rosto refletido na poeira de seus sapatos.
É inegável: todo mundo é peregrino nesta senda terrena.
Todos nós somos filhos do anseio e órfãos da plenitude esquecida.
Quem não pisa, dia após dia, sobre a dor-saudade que insiste: Volta-te para dentro! A Origem que buscas não está no fim da estrada, mas no Silêncio que habita o centro da tua jornada."*
A estrada sem fim é, sem dúvida, um espelho longo.
As pegadas da dor invisível são os degraus de volta para casa.
Os peregrinos são, sem sombra de dúvida, anjos disfarçados. A cada passo errante, eles nos lembram que o verdadeiro destino não é um lugar a ser alcançado, mas um estado de lembrança a ser reencontrado.
Peregrino, pare! Respira. Sinta a dor sob os pés. Ela não te leva para longe, mas sim para o mais íntimo abismo de ti mesmo. Lá, onde o desejo se cala e a origem canta eternamente o seu nome, está a resposta.
por edii Camara

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