O ato de escrever como ferida no real

O ato de escrever como ferida no real — edii Camara
Texto para podcast

O ato de escrever como ferida no real

Antes de começar — e já começo ao dizer isso — preciso admitir que este texto não sabe exatamente o que é. Ele suspeita que seja um ensaio. Mas também suspeita que seja uma pergunta disfarçada de resposta, ou uma resposta que nunca teve coragem de ser pergunta.

Platão expulsou os poetas da cidade ideal. Você já parou pra pensar no que isso significa? Não expulsou os assassinos. Não expulsou os mentirosos. Expulsou quem faz perguntas com imagens. Quem escreve ficção especulativa antes que esse nome existisse. Porque Platão sabia — e isso me assusta mais do que qualquer coisa — que a ficção interfere. Que uma história bem contada é mais perigosa que um argumento bem construído. O argumento você pode refutar. A história você carrega no corpo.

E Borges? Borges criava labirintos onde os arquétipos ainda não tinham sido nomeados. Personagens que existiam no espaço entre o símbolo e a carne. Um bibliotecário que descobre que o universo inteiro é uma biblioteca. Um homem que sonha outro homem e descobre que também é sonhado. Borges não escrevia sobre o impossível — ele escrevia o que o real ainda não sabia dizer sobre si mesmo. Isso é diferente. Isso é outra coisa.

E se a palavra "cura" pudesse ser escrita com o sangue de um homem justo?

Essa pergunta me paralisa. Me paralisa porque ela não é metáfora — ou melhor, ela é metáfora demais, e quando uma metáfora ultrapassa certa densidade, ela vira matéria. A palavra "cura" já foi pronunciada sobre corpos que não se curaram. Já foi escrita em receituários que mataram. Já foi gravada em lápides onde se esperava outra coisa. Então perguntar se ela poderia ser escrita com sangue — com o sangue específico de um homem justo, não de qualquer homem — é perguntar se a linguagem tem peso moral. Se as palavras que usamos para nomear a saúde carregam a responsabilidade de quem as pronuncia.

E eu acredito que sim. Acredito que carregam. E isso me aterra enquanto escrevo este texto agora, aqui, em voz alta, para você que ouve.

Porque talvez a pergunta mais radical de todas — e eu a deixei por último porque ela muda o sentido de tudo que veio antes — seja esta: e se escrever fosse um ato radical de interferência no tecido do mundo?

Não metaforicamente. Não "ah, as palavras têm poder, que bonito". Literalmente. Fisicamente. Ontologicamente.

Pense: quando você lê uma frase e ela te muda — não muda sua opinião, muda você, muda o peso do seu corpo sobre a cadeira — o que aconteceu ali? Uma cadeia de símbolos arbitrários entrou pelos seus olhos, percorreu um caminho elétrico-químico, e reorganizou a forma como o real se apresenta pra você. Você não é mais a mesma pessoa que começou esta frase. E se não é a mesma pessoa, o mundo também não é o mesmo mundo. Porque o mundo que existe pra você existe na relação entre você e ele.

Escrever, então, não é descrever o real. É participar da sua fabricação.

E este texto — este texto aqui, agora, que você ouve — já está fazendo isso. Já está interferindo. Já mudou alguma coisa que não pode mais ser desfeita.

Eu não sei se isso te assusta ou te alivia. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Talvez seja exatamente isso que a escrita faz: habitar a fresta entre o medo e a maravilha, e te colocar ali dentro sem te pedir licença.

E se escrever fosse isso — seria possível escrever com leveza? Seria possível escrever frivolamente? Ou cada frase seria um gesto de responsabilidade total?

Deixo a pergunta aberta. Não porque não tenha resposta. Mas porque uma resposta fechada seria uma pequena morte.

E eu prefiro te deixar vivo.

— fim do episódio —

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