Sprint
Há revistas que não foram feitas para durar no tempo — foram feitas para tensioná-lo.
A Revista Sprint era uma dessas. Não buscava o ruído das bancas, nem o brilho efêmero da manchete esportiva. Era, antes, uma espécie de caderno de campanha do corpo — um território onde músculos, ideias e método marchavam sob o mesmo comando invisível: o da disciplina que pensa.
Escrever sobre ela, agora, é como limpar uma arma antiga: não para usá-la, mas para compreender o gesto de quem a empunhou.
Lembro-me — ou invento com precisão — de um tempo em que o corpo não era apenas biológico, mas doutrinário. Havia algo de litúrgico na forma como se falava de flexibilidade, de periodização, de resistência. Não eram apenas conceitos: eram estratégias de permanência no mundo.
E entre aqueles que escreviam — não, que inscreviam — esse mundo no papel, estava o professor Estélio Henrique Martin Dantas.
Mas aqui, permita-me uma inflexão: não falo do acadêmico consagrado, do autor citado, do currículo que se expande como um mapa. Falo do oficial.
Do contemporâneo.
Do homem que, em algum ponto da década de 1980, perfilou não apenas ideias, mas também o próprio corpo dentro de uma estrutura maior — o Exército Brasileiro — onde pensar o movimento era, paradoxalmente, aprender a obedecer ao ritmo do outro.
Há algo de profundamente filosófico nisso.
A Sprint não era uma revista.
Era uma hipótese.
Uma hipótese de que o Brasil poderia pensar o corpo com rigor.
Uma hipótese de que a educação física não precisaria ser apenas prática — poderia ser linguagem.
Uma hipótese de que o treino não era repetição, mas narrativa.
E como toda hipótese, ela não precisava durar para ser verdadeira.
Seus artigos — “Flexibilidade Versus Musculação”, “Periodização do Treinamento” — hoje soam quase como fragmentos de um tratado maior, incompleto por natureza. Textos que não buscavam encerrar o debate, mas abri-lo como quem abre um campo de instrução ao amanhecer: com neblina suficiente para obrigar o pensamento a tatear.
É curioso como algumas publicações desaparecem não por falha, mas por excesso de precisão.
A Sprint talvez tenha sido exata demais para seu tempo.
Num país que ainda aprendia a consumir esporte como espetáculo, ela propunha o esporte como ciência. Num ambiente que celebrava o improviso, ela insistia na periodização. Onde havia corpo, ela via sistema.
E sistemas, sabemos, assustam.
Mas o que permanece?
Permanece o gesto.
Permanece o que poderíamos chamar — em falta de termo melhor — de uma ética do preparo.
E aqui, meu caro professor, permito-me sair do ensaio e entrar na confidência: há um orgulho silencioso em ter compartilhado, ainda que por um intervalo breve na história, a mesma linha de formação. Não apenas como militares, mas como leitores do corpo. Como intérpretes de uma gramática que não se escreve com palavras, mas com repetições, pausas, tensões e limites.
Perfilamos nas armas, sim — mas também perfilamos diante de uma ideia.
A ideia de que o corpo pensa.
Hoje, quando quase tudo se dissolve em velocidade — inclusive o próprio conceito de disciplina —, revisitar a Sprint é como encontrar um antigo manual de instruções para algo que esquecemos que sabíamos fazer: sustentar.
Sustentar o esforço.
Sustentar o método.
Sustentar a pergunta.
E talvez seja isso que reste, no fim.
Não os exemplares raros.
Não as citações dispersas.
Nem mesmo a memória precisa dos números e volumes.
Mas uma espécie de eco.
Um eco que diz, com a firmeza de quem já marchou: o corpo não é apenas o que executa.
É o que compreende.
E compreender — como bem sabíamos, mesmo sem dizer — sempre foi a forma mais exigente de resistência.
"Ao olhar pelo retrovisor - o qual posso afirmar ser um para-brisa, recordo-me de nosso treino de corrida no entorno da lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de janeiro".

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