Inteligência Artificial na Vaidade Tropical
Existe uma forma peculiar de inteligência que não exige cálculo, laboratório ou protótipo. Ela floresce no microfone. É a inteligência declaratória — aquela que se autoproclama antes de existir. Seu gesto inaugural é o brinde.
O Brasil desembarca na Índia com uma comitiva numerosa, ministros em desfile e uma convicção admirável: a de que pode regular o futuro antes mesmo de compreendê-lo. Sob a condução de Luiz Inácio Lula da Silva, fala-se em governança global da inteligência artificial com a segurança de quem mal conseguiu digitalizar a própria burocracia.
É um espetáculo fascinante: o país que ainda luta contra filas físicas celebra a soberania do algoritmo.
Defende-se uma “regulação humanocêntrica”, expressão suficientemente vaga para caber em qualquer discurso e suficientemente grandiosa para parecer profunda. O curioso é que o Brasil pretende ensinar ética tecnológica ao mundo enquanto debate, internamente, se deve sufocar a inovação para proteger-se de si mesmo. Há um medo estrutural de que a liberdade produza algo fora de controle — talvez porque o controle seja a última ficção institucional ainda de pé.
Na outra ponta, a Índia de Narendra Modi fala menos sobre poesia regulatória e mais sobre produção. Não é que ignore a ética; apenas parece compreender que ética sem capacidade técnica é catecismo diplomático. Enquanto o Brasil redige princípios, a Índia escreve código.
Mas o momento sublime está no teatro anti–Big Tech. O Brasil critica as gigantes digitais enquanto agenda reuniões com seus presidentes. Discursa contra a hegemonia tecnológica do Norte ao mesmo tempo que depende dela para hospedar seus próprios dados. É a soberania em versão “cloud”: etérea, contratada por assinatura mensal.
O mais refinado dos gestos, contudo, é o seguinte: exigir reforma das instituições globais enquanto mal se reforma o próprio ambiente de negócios. Pedir protagonismo no Conselho de Segurança da ONU enquanto a segurança jurídica doméstica tropeça na própria sombra. É como reivindicar a cadeira na cabeceira da mesa quando ainda se aprende a usar os talheres.
E então chega o clímax tropical: o Brasil se apresenta como líder do “Sul Global”. A expressão tem aura épica, quase messiânica. Soa como se estivéssemos coordenando uma revolução epistemológica, quando, na prática, buscamos financiamento climático e transferência tecnológica com a humildade involuntária de quem ainda compra know-how parcelado.
O país que não domina semicondutores deseja arbitrar o destino da inteligência artificial. O país que exporta commodities quer exportar princípios. O país que ainda debate o passado pretende arquitetar o futuro.
Há algo de profundamente brasileiro nisso tudo — essa convicção performática de que declarar é realizar. Se afirmarmos soberania tecnológica com suficiente ênfase, talvez os servidores se multipliquem por geração espontânea. Se repetirmos “governança justa” em fóruns multilaterais, talvez os algoritmos se tornem automaticamente equitativos.
É o velho talento retórico nacional aplicado ao silício.
No fundo, o que se observa não é uma estratégia tecnológica, mas uma estratégia simbólica. O Brasil não disputa apenas mercado; disputa narrativa. E na narrativa somos imbatíveis. Ninguém transforma intenção em epopeia com tamanha habilidade. Ninguém brinda ao futuro com tanta elegância antes mesmo de plantar a uva.
Gabar-se de ter sido inteligente — eis a verdadeira inovação.
Porque, afinal, se a inteligência artificial ainda não é nossa, ao menos a retórica continua sendo.

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