Exílio
por edii Camara
Personagens:
Socrático: Um velho filósofo, questionador e sereno.
Lísias: Um jovem ateniense, inquieto e melancólico.
A cena passa-se à sombra de um plátano, perto do ginásio do Liceu. Socrático encontra Lísias a olhar para o horizonte, com uma expressão de desassossego.
Socrático: Saúdo-te, Lísias. Contudo, a tua face não me saúda de volta com a mesma alegria. O teu olhar parece perdido, como o de um marinheiro que busca uma terra que não consta em mapa algum. Dize-me, o que aflige a tua alma a ponto de exilar o brilho dos teus olhos?
Lísias: Ó, Socrático, usas a palavra precisa para a minha condição: exílio. Sinto-me um exilado, não por decreto de um arconte ou por ter traído a pólis, mas por uma condição que me parece mais fundamental. Este corpo, esta cidade, este próprio mundo... sinto-os como um espaço que me confina. As ruas de Atenas, por mais belas que sejam, são sempre as mesmas ruas. O céu, por mais vasto, é sempre o mesmo céu. Sinto-me aprisionado nos limites do espaço físico, como um pássaro numa gaiola dourada. A minha alma anseia por outras paragens, por outras vidas, mas os meus pés estão presos a este chão.
Socrático: Entendo. O teu exílio não é de uma pátria, mas no próprio Espaço. Dizes que o teu corpo é uma prisão e o mundo, os seus muros. Mas dize-me, Lísias, se um homem está numa cela escura, privado da visão do sol, não pode ele ainda viajar com o pensamento? Não pode a sua mente revisitar os campos da sua infância ou imaginar reinos de pura beleza?
Lísias: Pode, Socrático, mas são apenas sombras, devaneios fugazes. Logo a frieza das paredes de pedra o chama de volta à sua miserável realidade. O pensamento, sem um guia, vagueia e se perde.
Socrático: Um guia, dizes tu. Eis uma observação arguta. E se eu te dissesse que existe um portal, uma passagem que não se atravessa com os pés, mas com a alma? Uma porta que te permite escapar da tirania do "aqui e agora" e viajar sem mover um único músculo?
Lísias: Farias de mim o mais feliz dos homens se me mostrasses tal portento. Seria alguma forma de rito místico? Uma prece aos deuses?
Socrático: (Sorrindo e apontando para um rolo de papiro que um estudante transportava) É algo mais próximo e, talvez por isso, mais misterioso. Vês aquele rolo? Aquelas marcas escuras sobre a folha clara? O que são elas, na tua opinião?
Lísias: São letras, Socrático. Símbolos que representam os sons da nossa fala. Servem para registar leis, poemas e as histórias dos nossos antepassados.
Socrático: Apenas isso? Vês as letras como meros recipientes de sons, como jarros que guardam água? Ou poderiam ser algo mais? Pensa comigo: quando Homero compôs a sua Odisseia, ele não verteu apenas sons para o papiro. Ele depositou ali uma centelha da sua própria alma, as suas visões de Ítaca, a sua compreensão da astúcia e da saudade. As letras não são os sons; são as sombras visíveis de um pensamento invisível, o eco de uma alma que já partiu.
Lísias: Continua, Socrático. O teu raciocínio começa a abrir uma fresta na minha cela.
Socrático: Quando pegas nesse rolo e os teus olhos percorrem as linhas, o que acontece verdadeiramente? É um ato passivo? Ou é um diálogo silencioso? A tua alma, Lísias, une-se à alma de Homero. No instante em que lês sobre as sereias, não estás mais à sombra deste plátano, mas a bordo de um navio, a lutar contra um feitiço mortal. Quando lês os diálogos de um filósofo, não estás apenas a decifrar símbolos, mas a sentar-te com ele, a pesar os seus argumentos, a participar na busca pela Verdade.
Lísias: Por Zeus! É isso mesmo... Sinto que a minha mente se expande...
Socrático: Exato! O teu corpo permanece aqui, em Atenas, um ponto fixo no espaço. Mas a tua alma? A tua alma libertou-se. Ela transcendeu a geografia e o tempo. Através da leitura, habitas um novo espaço, um espaço incomensurável que não se mede em estádios ou palmos. Este é o Espaço da Alma. É um lugar construído não de terra e pedra, mas de ideias, de emoções, de sabedoria e de beleza.
Lísias: Então, o exílio no qual eu me encontrava...
Socrático: ...não era um exílio no Espaço, mas um exílio do Espaço da Alma. Estavas confinado ao mundo dos sentidos, ao domínio do corpo, que é por natureza limitado. A leitura é o método pelo qual a alma recorda a sua própria natureza infinita. Ela viaja para Tróia, debate na Acrópole com Péricles, explora as profundezas do Hades com Orfeu. Cada livro é um novo continente para o espírito, uma nova pátria para a alma exilada.
Lísias: (Com os olhos agora brilhantes, não mais de melancolia, mas de descoberta) Então, a cura para a prisão do corpo não é a morte, mas a vida dentro destas outras vidas. O antídoto para a tirania do lugar é a viagem através das páginas. O meu refúgio não está numa terra distante, mas no silêncio de um papiro aberto.
Socrático: Precisamente, meu jovem amigo. Deixaste de ser um prisioneiro que olha para fora das grades, ansiando pelo que não pode alcançar. Agora, compreendes que a chave da tua cela sempre esteve contigo. Não é uma chave de ferro para uma porta física, mas uma chave de compreensão para a porta da tua própria alma. O exílio termina quando descobres que a tua verdadeira casa é um reino interior, vasto e sem fronteiras, cujo acesso se dá pelo humilde e sublime ato de ler. Agora vai, Lísias. A tua jornada está apenas a começar. Tens mundos a descobrir.

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